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'Só me querem como roteirista', diz Christopher Hampton

Dramaturgo lembra da trajetória do filme 'Um Método Perigoso', que nasceu de uma peça sua

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

16 de abril de 2012 | 03h06

Dramaturgo e roteirista, o inglês Christopher Hampton ganhou o Oscar de roteiro por Ligações Perigosas, que Stephen Frears adaptou de sua peça. Ele seguiu trabalhando com o diretor em O Segredo de Mary Reilly e Chéri, adaptado do livro de Colette. Mary Reilly aproximou-o de Julia Roberts e Hampton escreveu para um filme sobre Sabina Spielrein. Esse roteiro não filmado virou peça (de Hampton) e deu origem ao filme de David Cronenberg, Um Método Perigoso, em cartaz na cidade. Ele conta como isso ocorreu numa entrevista feita por telefone, de Londres.

De onde vem seu interesse pela psicanálise?

Nunca me analisei, se é isso que você quer saber, mas não foi por qualquer espécie de autossuficiência nem preconceito. E a psicanálise sempre me interessou. Essa aventura da mente teve desdobramentos profundos na história do homem, com reflexos na arte. O assunto me interessava, o problema era achar o viés. Ele surgiu quando descobri a história de Sabina Spielrein. Nos anos 1970, Bruno Bettelheim escreveu um livro sobre ela, a partir de documentos e cartas que foram descobertos em malas que Sabina havia deixado em Genebra. Descobri a história de sua relação com Jung e Freud. Conversei com Julia (Roberts) sobre o assunto e ela se interessou, me encomendando, por meio de sua produtora, um roteiro. Fiz uma extensa pesquisa, mas ocorre que os executivos da Fox convenceram Julia de que não era um projeto para ela. Meu roteiro tombou, o que muito me aborreceu.

Mas o roteiro virou peça.

Graças a Julia. Muita gente fala mal dela, mas Julia foi muito solidária. Os executivos da Fox me negavam o direito de converter o roteiro em peça, dizendo que eu havia recebido e a propriedade era deles. Julia acabou com a conversa me retornando os direitos e isso me possibilitou escrever The Talking Cure. O alvorecer da psicanálise, as disputas entre Jung e Freud, o affair de Jung e Sabina, tudo isso era muito interessante e realmente teria sido um desperdício jogar o material fora.

Freud e Jung são os legítimos personagens maiores que a vida, e geram sempre polêmica. Você devia saber disso, não?

Com certeza, mas não iria me privar de contar essa história só por causa das polêmicas que poderia despertar. Há cerca de um mês, participei de um encontro com integrantes do Instituto de Psicanálise de Londres. Havia mais de uma centena deles, e alguns bastante proeminentes. Gostaram do filme e o acharam acurado, o que, para mim, foi uma surpresa, mas claro que os junguianos nos acusaram de haver favorecido Freud e os freudianos, de que o filme favorecia Jung. Tenho de admitir que, do ponto de vista dramatúrgico, Jung tende a ser menos monolítico do que Freud. É um grande personagem, mas o nosso desafio foi não discriminar Jung, dando-lhe tratamento humano.

Sabina, de qualquer maneira, é a alma do filme. A paciente que vira amante de seu analista e, depois, se torna psicanalista. É uma curva muito complexa, mas tenho a impressão de que a cena do reencontro dela com Jung, no fim, é reveladora.

Esse reencontro é uma licença poética, uma necessidade dramatúrgica. Ele pode ter ocorrido, mas não há evidência disso. As cartas, os testemunhos, tudo dá razão a essa versão. Sabina se casou com um médico russo, reconstruiu a vida, como mulher e intelectual, mas não tenho dúvida de que Jung tenha sido seu grande amor. E ela, como intelectual, fez o que para mim é importante, provou que os métodos de Freud e Jung não são tão inconciliáveis assim. Jung, ao contrário de Freud, sempre teve pulsão sexual muito forte. Teve outros envolvimentos, mas seria importante não rotular Jung de canalha sexual. A libido, como atividade mental, é essencial nos questionamentos da psicanálise e Jung se presta à figura do psicanalista psicanalisado.

Os três atores apresentam um trabalho fantástico, mas Keira Knightley tem sido criticada, no Brasil inclusive, pelo que a muita gente parece exagero.

Acho o trio fantástico. Keira e Viggo (Mortensen) fizeram todo um trabalho de preparação, envolvendo pesquisa. Michael (Fassbender) teve pouco tempo para se preparar, estava numa fase de emendar um filme no outro, mas justamente por isso o trabalho dele é fantástico. Na Inglaterra e nos EUA, Keira foi mal interpretada. Ela fez um trabalho muito sério de documentação. Existem fotos que mostram pacientes de histeria com mandíbulas mais cerradas que a dela e com expressões que transcendem a dor. O problema é que a histeria para a gente tem hoje uma conotação completamente diferente.

Sua peça se chama The Talking Cure, A Cura pela Fala, mas o filme adota o título do livro de John Kerr. Foi uma decisão de Cronenberg?

Foi, e imagino que fatores comerciais tenham pesado. Um Método Perigoso atrai mais o público que A Cura pela Fala, ao mesmo tempo o método perigoso envolve justamente a palavra na verbalização das divagações da mente. O método associativo (de palavras) de Jung não é só científico, é cinematográfico. Hitchcock usou-o numa cena chave de Marnie, no diálogo entre Tippi Hedren e Sean Connery, quando ele age como psicanalista, tentando extrair informações dela para chegar à origem de seu trauma.

Para mim foi uma surpresa que Cronenberg tenha feito o filme. Em geral, ele se interessa mais pelas deformações do corpo que da mente. Mas foi uma boa surpresa, você concorda?

Completamente. Já conhecia David, mas se você dissesse que íamos trabalhar juntos eu diria que não. As chances me pareceriam remotas. Mas ele leu a peça e ficou fascinado. Me comprou os direitos e ainda quis que eu fizesse a adaptação. Foi uma colaboração frutífera.

Só como curiosidade, quem eram seus atores no teatro?

A peça só foi representada em Londres, em 2002. Ralph Fiennes era Freud e Johdy May, a garota de A World Apart, era Sabina. Ela foi uma extraordinária Sabina, tão boa quanto Keira. A peça só foi apresentada em Londres. Os produtores norte-americanos queriam levá-las para a Broadway, mas Ralph estava com a agenda lotada e teria de ser substituído, o que eles não aceitaram.

A cena do primeiro encontro entre Jung e Freud é puro diálogo. Deve ter sido assim, porque durou 13 horas na realidade. Você teve problemas para impor tantas falas a Cronenberg?

Pelo contrário, reduzi o diálogo mas foi ele quem me exortou a que o reconstituísse, dizendo que gostava muito da discussão. É curioso. (Stephen) Frears, outro diretor com quem trabalhei muito, não tolera mais que uma página de diálogo. Se tem mais ele me obriga a cortar. Cronenberg queria mais diálogo. Cada diretor é um autor, tem seu método. Stephen gosta que eu fique no set, e com frequência me pede que improvise novos diálogos, na hora. David planeja o filme com antecedência. Minha presença era supérflua no set, ele não mudava nada.

Você não tem dirigido muito, desde Carrington, que era um belo filme. Por quê?

Na verdade, fiz um par de filmes, incluindo Imagining Argentina, sobre desaparecidos políticos, com Antonio Banderas e Emma Thompson. É um filme do qual me orgulho, mas foi muito mal de público. Desde então, os produtores só querem saber de mim como roteirista, mas tenho outro projeto, que pretendo dirigir, talvez no ano que vem.

Christopher Hampton

Nascido em 1946, foi indicado para o Oscar pelo roteiro de Desejo e Reparação (2007), direção de Joe Wright. Também fez o roteiro de O Americano Tranquilo (2002), de Phillip Noyce, de Coco Antes de Chanel (2009), de Anne Fontaine, e o do filme Visões (2002), que também dirigiu.

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