Só Existe Interpretação? (2)

Existe “realidade” e limite no mundo social brasileiro? Seria possível interpretar o feijão com arroz como caviar? 

Roberto da Matta, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2015 | 02h00

Lembro que, nos anos 60, o projeto era o de transformar a “realidade nacional” feita de feudalismo, espoliação burguesa e imperialismo ianque. Depois de uma década de lulo-petismo, porém, erros, incompetência, mentiras, roubalheiras, aparelhamentos, falsificações e inacreditáveis desvios de recursos, são rotinas. 

O “real” foi relativizado. 

Passou a ser uma preferência e virou interpretação inventada por golpistas, pela imprensa mentirosa e pelos fomentadores do ódio e do preconceito. Os traidores da confiança dos seus eleitores devem ser vistos com afeição. Seria deles um projeto político impecável e indiscutível – logo, isento de interpretação como o real do real!. Se conhecemos a infraestrutura – os determinantes da realidade – todo o resto é panaceia ou versão.

O professor Richard Moneygrand, guri, disse tudo isso faz tempo. Há “anos atrás”, como se diz no nosso brilhante momento intelectual. Como se “anos” pudessem mesmo estar na frente...

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Seria possível associar sociedades aristocráticas e hierárquicas com a predisposição para ler o mundo como sendo feito do oficial (e do legal) em contraste com o real? Se for assim, pode-se apagar o real, já o “oficial” e o “legal” seriam versões de um “real jurídico”, que viria sempre em socorro de quem detém o poder. Sobretudo, do poder administrativo – a potência imediata e óbvia (mas não discutida) de “ser governo” e, como tal, cobrar impostos, licenciar bens e serviços, ter o monopólio da violência e, eventualmente, cuidar da saúde, da educação e do saneamento. No caso brasileiro, o governar seria apenas controlar e visitar súditos (ex-eleitores); ou o governar seria o dever de criar bem-estar coletivo?

O governo pertence à sociedade ou a sociedade é englobada pelo governo? Quem seria o mais sábio: a sociedade (com o seu senso comum) ou o governo com seus ministros, diretores, técnicos e sábios que saberiam tudo? 

Se o governo (e seus “exércitos”, como disse Lula) comanda tudo, sendo o sujeito exclusivo da sociedade, como resolver os problemas decorrentes dos seus erros? Ou não se pode admitir que ele tenha malandramente enganado a sociedade, escondendo um projeto de poder o qual não poderia ser relevado porque a “sociedade não estaria evoluída para aceitá-lo?”.

Se governo e sociedade estão numa relação hierárquica, os governantes decolam da sociedade numa autoatribuída autoridade. Uma autoridade antirrepublicana. Se o governo é uma suprema autoridade, a moralidade estabelecida não conta e o governo pode ter razões que a sociedade desconhece. Pode, por exemplo, realizar uma política externa antidemocrática, alinhando-se a governos neofascistas. Pode também – e esse seria o limite e o foco da crise – assaltar a sociedade como tem sido o padrão brasileiro e latino-americano, mas que hoje enfrenta mais uma tecnologia de transparência do que a moralidade ambígua na qual, reitero, o país não é a sociedade com sua ética, mas é o governo na sua obra de duvidosas cumplicidades.

Do republicanismo fundado na igualdade perante a lei, surge um monstro aristocrático baseado no fato de que quem é do governo nada deve à sociedade, desde que tudo tenha “sido feito dentro lei”. Ou realizado obedecendo formalidades, embora o resultado seja o enriquecimento abjeto dos seus comparsas e quadrilheiros. 

Nos sistemas igualitários, em que governo e sociedade são interdependentes, o real funciona colecionando pontos de vista. Eu posso denunciar e discordar, mas não tenho o direito de tornar irreal ou imoral a versão do adversário. Desqualificar o adversário, negando-lhe a realidade, é o centro da crise brasileira. 

Mas e o “real”? Onde, por Deus, foi parar a famosa “realidade brasileira” parida da escravidão e da chibata dos senhores que, tal como repete sem saber a esquerda caviar, eram abolicionistas? A negação do real não seria uma visão fascista do mundo? Se todos podem falar, então que venham as falas e os berros. Mas que eles tenham algo a ver com a realidade. Penso que terminou o ciclo no qual infantilizar a sociedade brasileira era a moda e o populismo o seu código predileto. 

Ninguém aguenta mais assistir a uma peça na qual poucos atores honram seus papéis. Aliás, por uma questão de ética, alguns desses heróis deveriam sair do palco. Ademais, o final parece terrível: a corrupção vence a honestidade. 

Sergio Buarque de Holanda, escreveu: “Em terra onde todos são barões, não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”. Quem seria essa força exterior? Os marcianos? Os exércitos da CUT? As Forças Armadas? Uma legião de anjos do Senhor?

Ora, tal força só pode ser a lei que, sendo expressão da honra de um país, não pode deixar que o roubo da coisa pública e a virtual destruição da gestão do bem comum transite de crime a ser debelado a valor a ser premiado. O bandido não pode ser reinterpretado como mocinho e nós, batalhadores do cotidiano, não podemos abandonar o real do feijão com arroz que, sem nenhuma interpretação, tem que ser comido.

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