Só dança samba? Experimente com orquestra

Ouvir música como simples deleite ao espírito é bom, claro; e a música clássica está aí para isso. Mas ouvir dançando, também é. Porque o corpo gosta de música também. E vem daí o impasse em que se colocou a vertente da música popular brasileira conhecida como MPB.

Neil Lopes, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Surgida, como se dizia, para renovar esteticamente o quadro da música urbana de consumo de massas, saturado, então, de rocks, bolerões e chá-chá-chás (músicas eminentemente dançantes), a bossa nova acabou por instituir o intimismo, a contemplação, a não-participação, o banquinho-violão. Paradoxalmente, entretanto, o estilo acabou por propiciar o surgimento, ou a disseminação reativa, de pequenos conjuntos orquestrais cultores do samba então chamado "de balanço" (diferente do "samba-jazz"), já dentro da nova divisão rítmica.

É dessa época o grupo de Ed Lincoln, o mais bem-sucedido de todos, e agora homenageado no mais recente lançamento do grande cantor Emílio Santiago, o maravilhoso CD Só Danço Samba (Santiago Music). Como foram também os de Walter Wanderley e Steve Bernard, nos quais se notava a utilização primordial dos teclados eletrônicos no samba - o que já se conhecia através dos "solovox" de Djalma Ferreira e Waldir Calmon.

Com a Era dos Festivais, o divórcio entre música e dança atingiu extremos, salvando-se, ali e acolá, um ou outro exemplo de balanço jovem e renovado.

Na contramão, entretanto, há muito tempo, casas de dança no subúrbio carioca e em alguns redutos paulistanos vêm dando de graça, aos estudiosos, provas eloquentes de que a celebração da vida, pela alegria da dança e do canto, continua firme e forte. Que o digam os frequentadores desses bailes animados por grupos musicais tão bons quanto estranhos à mídia; que interpretam, sim, os obrigatórios sucessos das paradas, mas que botam pra quebrar, mesmo, é com samba.

Tempos atrás, esses bailes frequentemente tomavam caráter de verdadeiros campeonatos de samba com par enlaçado - o chamado "samba de gafieira". E, aí, conjugando os antigos puladinho, cruzado, pião, cobrinha (este, tão antigo quanto o maxixe), citações de tango, etc., os pares realizavam prodígios nos salões. Até pelo menos a década de 80.

Acrescento que em minha modesta opinião, a MPB é a música da percussão "envergonhada", que dá mais valor à harmonia do que à pulsação rítmica. E é aí que ela perde, inclusive internacionalmente, principalmente para a música afro-cubana.

Agora mesmo, fortaleço essa ideia, ao ouvir um CD que, inclusive, não é nem de música popular, pois está mais perto do jazz e da música de concerto, mas assume a percussão com toda a competência. Trata-se do CD Letieres Leite & Orquestra Rumpilez, lançado meses atrás pela gravadora carioca Biscoito Fino.

Nele, o maestro e compositor baiano apresenta, com sua orquestra, dez temas inspirados no rico universo musical da tradição afro-brasileira dos orixás, colocando, além dos naipes de metais e palhetas que compõem o conjunto, um naipe de percussão, integrado por seis músicos, na frente, de cara, sem aquela de "cozinha".

Falo dessa orquestra como, agora no âmbito estritamente dançante, menciono também a experiência da banda Araketu, nascida do importante bloco-afro de Salvador. Nela, igualmente, a percussão merece um naipe, colocado à frente da banda e convenientemente isolado, em função da acústica, por biombos de acrílico. A sonoridade e o balanço dessa banda, além da excelência de seu cantor solista, são de arrepiar.

Dito isso, retomo uma ideia que há muito povoa meus pensamentos. Por que não se forma uma orquestra voltada exclusivamente para a interpretação do nosso gênero-mãe, como a concebida e dirigida pelo grande Wilson das Neves nos bailes do Clube do Samba, na década de 70? Nela, os metais, palhetas e cordas de praxe tinham o reforço de um verdadeiro dream team da percussão. Por que não repetir a experiência, com apoio de uma lei de incentivo dessas aí?

O repertório está prontinho, de Ary Barroso a Moacir Santos, passando pelos sambinhas buliçosos de Jacob do Bandolim. Os arranjos? A Tabajara de Severino Araújo e a Mantiqueira do Nailor Proveta sabem onde estão. É só perder o medo dos tambores e colocá-los lá na frente.

Atrás de um samba desses, major, até as majors vão atrás!

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NEI LOPES É ESCRITOR E COMPOSITOR

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