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Smoking por baixo

Bond, James Bond, foi o último herói do Ocidente a nunca ter dúvidas sobre o que e como fazer

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 03h00

Nada confirma que um Martini sacudido seja melhor do que um Martini mexido, mas Bond, James Bond, especificava: seu Martini deveria ser sacudido numa coqueteleira antes de servido. Com a mesma certeza, ele dissertava sobre a correta temperatura para tomar um saquê. Bond, James Bond, sabia o que estava dizendo. Bond, James Bond, sempre sabia o que estava dizendo. Parte da sua atração era que também sempre sabia o que estava fazendo, fosse com Martinis ou mulheres. Só Bond, James Bond, chegava na festa na casa do bandido por baixo d’água para escapar dos seguranças, mas tirava a roupa de mergulhador na praia e por baixo estava impecavelmente de smoking. Bond, James Bond, foi o último herói do Ocidente a nunca ter dúvidas sobre o que e como fazer.

Curiosamente, embora a maior parte dos filmes do 007 coincidisse com a Guerra Fria na sua fase ainda latejante, são raros os filmes em que os vilões sejam da União Soviética. Quase sempre são bandidos free lance, malucos empenhados em dominar ou destruir o mundo até que o fiel súdito da rainha estrague seus planos, geralmente em finais apocalípticos. Se existe alguma coisa de política nas aventuras de Bond, James Bond, é a glorificação, mitigada pelo bom humor, do direito de um agente de sua majestade de intervir onde e como quiser, mesmo que seu objetivo seja salvar a civilização. Alguém certa vez reagiu a declaração ufanista de que o sol nunca se punha sobre o chão do império britânico com uma correção: o sangue nunca secava no chão do império britânico. Mas considerações sobre os horrores do imperialismo não combinam com Martinis bem feitos. E Bond, James Bond, estava apenas cumprindo ordens.

Sean Connery será sempre o 007 prototípico, mas teve uma respeitável carreira longe do personagem. Estava no melhor filme feito até agora de um livro do John Le Carré, A Casa da Rússia, roteiro do Tom Stoppard, direção do Fred Schepisi, um australiano que emigrou para os Estados Unidos e merece que se fique de olho. 

É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR, AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

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