Carlos Sales
A modelo Carine Guimarães Carlos Sales

A modelo Carine Guimarães Carlos Sales

'Skin positivity': os movimentos que buscam valorizar a pele natural

Movimentos desafiam padrões estéticos e reforçam autoestima com fotos de belezas reais, com acne, rugas ou vitiligo  

Ana Lourenço , O Estado de S.Paulo

Atualizado

A modelo Carine Guimarães Carlos Sales

Encontrar uma mulher completamente satisfeita com sua aparência é difícil. A busca pela pele e pelo corpo perfeitos – exibidos em propagandas, revistas e filmes – já existe há muito tempo. No século 21, contudo, a disseminação do padrão estético é feita largamente pela internet. Mas, se por um lado as redes sociais podem reforçar estereótipos, por outro, elas dão luz a causas, antes, não tão conhecidas. Hashtags como #pelelivre e #skinpositivity ficaram famosas por mostrar pessoas reais, sem filtros e completamente fora desse tal padrão. Hoje, são quase 85 mil publicações com esses termos no Instagram.

“É assim que a mudança acontece”, opina a influenciadora norte-americana Mikayla Zazon, criadora do movimento #NormalizeNormalBodies e #NormalizeNormalSkin (#NormalizeCorposNormais, #NormalizePelesNormais). Depois de lutar por seis anos contra bulimia, dismorfia corporal, depressão e ansiedade, ela passou a influenciar outros que sofriam como ela. “Tudo o que vemos repetidamente é mais normal em nossos cérebros. E a sociedade tem nos feito lavagem cerebral desde que o marketing passou a existir. ‘Criar problemas é fazer mais dinheiro’: essa é a filosofia deles."

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'Quanto mais pele real vemos, mais percebemos o quão normal é”
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Mikayla Zazon, influenciadora digital

Para a estudante Nathália Simeão, de 19 anos, a representatividade fez toda a diferença. “Quando você vê as pessoas postando fotos com acne aparente, é outra coisa. Você sente que existem pessoas que nem você”, conta ela, que, apesar de considerar sua autoestima muito boa, confessa ter seus altos e baixos.

Apesar de ter a consciência de que a inflamação é normal e que muitas mulheres passam por isso, Nathália, que lida com a acne há cinco anos, conta que dentro das redes essa visibilidade não é tão comum. “As meninas postam fotos com maquiagem, filtro ou simplesmente com uma iluminação que a pele fica mais lisinha”, diz ela, que, para romper com esse padrão, criou a página @acneperfeita em abril. “Por isso, eu falo de normalizar a acne. Todo mundo sabe que existe, mas ninguém aceita, tentam cobrir como se não existisse.”

“Pele perfeita é pele saudável”, afirma a dermatologista Carla Vidal. “Claro que a gente consegue tornar cada dia a pele melhor, mas dizer ‘a minha pele é perfeita, eu não vou ter acne nunca mais’, isso é impossível. Primeiro eu tenho que ter uma pele saudável; depois bonita.” Segundo ela, as espinhas aparecem principalmente por questões hormonais e genéticas, mas a alimentação e a limpeza da pele também podem contribuir para o quadro. No caso das mulheres adultas, a acne pode surgir por estresse. “Hoje, a mulher trabalha mais e se ela fica mais estressada, vai ter mais acne por conta do aumento do cortisol”, explica.

Ou seja, o estresse e a ansiedade gerados durante a pandemia também podem agravar quadros de acne. Além do uso prolongado da máscara - muitas vezes feitas com tecidos inapropriados e utilizadas por um período maior do que o permitido - que pode causar a conhecida mascne - espinhas e/ou reações desenvolvidas no entorno da região oclusa pela máscara.

A criadora de conteúdo Preta Araujo, de 28 anos, não teve acne na adolescência – mas passou a ter há quatro anos. “Acho que estava mais madura para entender essas questões, não tinha as pressões que a gente tem na adolescência. Mas, de qualquer forma, não é fácil, né?”, diz, sobre o seu processo de autoestima. 

Assim, o objetivo de Preta passou a ser normalizar outras peles e mostrar aos seus quase 160 mil seguidores no Instagram que está tudo bem não estar dentro do padrão. “Você está nesse processo de entender como é a sua pele, enquanto isso, trate-se bem. Autoestima é você se olhar e gostar de você de todas as formas, independentemente de uma pele lisa.”

Desapego 

O período da quarentena convidou mulheres a se libertar de certas preocupações estéticas, como pintar os cabelos. “O afastamento social acabou nos dando a chance de praticar o desapego e experimentar coisas novas. O processo de envelhecer não é fácil, mas precisa, no mínimo, ser aceito como natural para que possamos ser mais felizes. Sem regras, sem tabu e sem preconceito”, contam as criadoras da página @shet_alks, Camila Faus e Fê Guerreiro. 

No Instagram apresentado como “um lugar onde a idade dos ‘enta’ rima com “experimenta”, elas gostam de reafirmar a amplitude do conceito de bonito. “Somos criadas numa narrativa onde beleza e juventude andam de mão dadas e assim aprendemos que envelhecer é feio, quase errado”, dizem elas. “Quem disse que ruga é feio?

Justamente por esse motivo, de acordo com a influenciadora digital Patida Mauad, de 62 anos, a pauta sobre a pele está crescendo. “Eu viro referência para mulheres de 30, 40, 50 anos, que começaram a me seguir porque pensaram: ‘se essa mulher com 62 pode, eu também posso’”, diz ela, que tem seguidores “dos 18 aos 70 anos”. Na contramão da ditadura da beleza, Patida nunca usou creme antirrugas, tingiu o cabelo ou pensou em fazer plásticas.

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“Meus cuidados são muito internos. Dou muito carinho, dou muito valor para o autoconhecimento, para o se aceitar. Se vejo uma ruguinha ali, está tudo bem, eu vou aceitar ela com amor.” 
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Patida Mauad, 62 anos, influenciadora digital

Sem hábito de usar maquiagem, a publicitária Marcia Fortuna, de 42 anos, admite ter comprado cremes anti-idade, mas ela raramente se lembrava de usar. “Os potinhos venciam antes de acabar”, conta ela, que, assim como Patida, prefere se cuidar internamente. “Fui apresentada ao colágeno, que, junto com uma boa alimentação, me faz rejuvenescer de dentro para fora. E meu kung fu ajuda na autoestima.”

Ter amor próprio, no entanto, não impede que uns dias sejam melhores que outros. “Quando me sinto feia em uma foto, lembro que as rugas existem porque dou muita risada”, conta. Apesar de nunca ter ligado para maquiagem, a filha Letícia, de 9 anos, é apaixonada por make. 

 

Diversidade e representatividade

Em 2018, a modelo canadense e portadora de vitiligo Winnie Harlow fez história ao desfilar para a marca de lingerie Victoria’s Secret. Essa representatividade é exatamente o que a criadora de conteúdo digital Barbarhat Sueyassu, de 24 anos, busca fornecer em suas redes. “Acredito que hoje eu me coloquei nessa posição de conscientizadora justamente para poder fazer as pessoas enxergarem que é possível ser feliz tendo vitiligo.” Barbarhat diz ter sofrido bullying na infância e adolescência por sua condição. “Eu só reagi positivamente a isso por conta do suporte que tive”, diz ela, citando a terapia e o apoio familiar. 

De acordo com o dermatologista Caio Castro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o vitiligo é uma doença genética, mas pode surgir por estresse. “A maioria dos pacientes diz que (as manchas) aparecem por um motivo emocional mais forte.” 

Portadora de vitiligo desde os 6 anos, a modelo Carine Guimarães afirma ter uma relação maravilhosa com a própria pele. “Nunca me vi sem e não quero me ver sem”, garante.

Ela conta que chegou a fazer tratamentos na infância, mas decidiu não dar continuidade a eles. “Para mim era tudo muito dolorido. Fisicamente, psicologicamente… acaba doendo você ter de tomar aquilo toda hora”, diz ela citando desde chás e receitas caseiras a remédios receitados por médicos.

Nas clínicas dermatológicas, porém, o tratamentos principal é a fototerapia, que nem sempre é eficiente e pode ter efeitos colaterais. “O que pode acontecer é o envelhecimento da pele e maior risco de câncer de pele e queimadura. Mas o principal problema mesmo da vitiligo é a dor psicológica”, explica o dermatologista Caio Castro.

Por isso mesmo, Barbarhat e Carine mostram essa representatividade diariamente para os seus seguidores. “Em um dia, recebo 30, 40 mensagens de pessoas falando que se inspiram em mim. Sinto que é importante essa representatividade”, diz Carine.

Para reforçar essa representatividade, há três anos o fotógrafo Peter Devito clica modelos fora do padrão, englobando questões como manchas, rugas, sardas e espinhas.

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“Existem tantas pessoas diferentes no mundo e não muitas deles são representadas pela mídia.'
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Peter Devito, fotógrafo

"Quando as pessoas olham para as revistas, comerciais, elas deveriam sempre ver ao menos uma pessoa com quem possam se relacionar. O objetivo desse projeto é ajudar a mostrar e empoderar pessoas que eu acredito não serem representadas o suficiente”, explica o fotógrafo.

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