Skármeta lança dois novos livros em SP

Sempre sorridente e atencioso, o escritor chileno Antonio Skármeta, autor de O Carteiro e o Poeta, sobre o compatriota Pablo Neruda, está animado com a nova etapa de sua vida. Desde que deixou o cargo de embaixador de seu país na Alemanha, em fevereiro, só pensa em uma coisa: literatura. "Tenho muitos projetos para a literatura", diz ele, emendando e concluindo o seu raciocínio: "Nada mais que literatura, amor, viagens e amizades, esses são os meus projetos de vida."Skármeta chegou na segunda-feira a Ribeirão Preto e na quarta à noite fez uma palestra, no Theatro Pedro II, durante a 3.ª Feira Nacional do Livro, que começou no dia 8 e termina no domingo. Além disso, o escritor lança hoje, no Itaú Cultural, em São Paulo, a partir das 12 horas, dois livros editados pela Record: A Garota do Trombone e A Redação.Numa literatura sem intenções, como diz, em que seus personagens se vêem numa realidade dura e em busca da liberdade, os dois livros de Skármeta lançados no Brasil mostram duas histórias passadas no Chile. Em A Garota do Trombone, um órfã de 2 anos, para se salvar da 2.ª Segunda Guerra Mundial, é levada, em 1944, da ex-Iugoslávia, por um trombonista, para Antofagasta, no Chile, a cidade natal do escritor. Lá, ela seria criada por um suposto avô. Sem conhecer os pais, a garota cresce e sonha com o futuro, inspirada no jazz e no cinema norte-americanos, e em ir para Nova York. Mas envolve-se com as perspectivas políticas chilenas e começa a namorar. A história vai até 1970, quando os chilenos elegem, pela primeira vez, um presidente de esquerda, Salvador Allende.A Redação, livro de conto traduzido pela acadêmica Ana Maria Machado e ilustrado pelo espanhol Alfonso Ruano, que marcou a estréia de Skármeta na literatura infanto-juvenil, foi vencedor do prêmio Unesco 2003 em Prol da Tolerância. "Foi uma surpresa, algo insólito", confessa o escritor. No conto, Pedro, um garoto de 9 anos, busca uma maneira de não cair na artimanha dos militares do ditador Augusto Pinochet num concurso literário. Uma redação era a forma de eles conseguirem que as crianças, involuntariamente, delatassem as atividades dos pais contra a ditadura. "Isso ocorreu no Chile entre 1974 e 1975 e os militares davam até instruções aos diretores de escolas e participavam das reuniões de pais e mestres", relata Skármeta. "O corpo de jurados desses concursos literários era constituído por assassinos", considera. "Comparado à realidade, o conto é inocente."O chileno Skármeta, de 62 anos, demonstra, em cada gesto, estar de bem com a vida e inspirado para os novos projetos. Não revela muitos detalhes do terceiro livro (ainda sem título) de sua trilogia, iniciada com As Bodas do Poeta, em 2000 - A Garota do Trombone é o segundo -, e que será publicado no fim de 2004. Adianta que a história se passa em Nova York e que existe uma primeira versão, mas que precisa retornar à cidade norte-americana, onde morou quando estudante, para sentir as mudanças provocadas pelo atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 antes de concluir o texto. Na primeira versão, a história termina antes do atentado. "Não só Nova York mudou, mas mudou o mundo", diz ele. "A história foi muito mais rápida que a minha literatura e, agora, tenho de agarrar a história que me escapou."A Garota do Trombone e A Redação. De Antonio Skármeta. Editora Record. A primeira obra tem 288 páginas e custa R$ 35,00; e a segunda, 36 páginas, por R$ 28,00. A partir do meio-dia, sessão de autográfos. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tel. 3268-1776.

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