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Fábio Porchat
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Sítio do Pica-Pau Amarelo

Um produtor e um diretor de teatro conversam na plateia.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2015 | 02h00

PRODUTOR

E como tá a escolha do elenco pra peça?

DIRETOR

Sensacional. Todo mundo escolhido já.

Entra no palco uma senhora chinesa com roupa de Saci e uma pera na mão.

DIRETOR

Olha aí, esse é o nosso novo Saci-Pererê.

PRODUTOR

Cadê?

DIRETOR

Tá aí. Fala oi, dona Tanaka.

SACI

Oi.

DIRETOR

Decora rápido ela, precisa ver.

PRODUTOR

Mas ela vai fazer o Saci?

DIRETOR

Ótima ela, né?

PRODUTOR

Mas o Saci é homem.

DIRETOR

Então, teve um movimento feminista meio radical que questionou isso. Alegaram machismo. Uma mulher não é boa o suficiente para ser um Saci? Por que a mulher precisa ser subjugada sempre?

PRODUTOR

Tá, mas de qualquer forma essa é só a primeira das minhas observações.

DIRETOR

Bom, a gente procurou uma série de mulheres negras e uma comunidade afro um pouco mais radical questionou isso. Por que o Saci malandro tem que ser negro? Quando questionei sobre ser branco, eles reagiram dizendo que era muito perigoso ficarmos nessa ditadura do preto e branco. Fomos na China.

PRODUTOR

E por que ela tem uma pera na mão?

DIRETOR

Porque a Vara da Juventude questionou isso. Disse que um cachimbo seria má influência para as crianças e uma apologia ao tabaco. Uma fruta passaria uma mensagem melhor.

PRODUTOR

Entendi. Mas é que aí descaracteriza um pouco.

DIRETOR

Não sei se ajuda, mas ela também é judia.

PRODUTOR

Bom, ela consegue pular numa perna só?

DIRETOR

Ah, sim, agora o Saci tem as duas pernas, sendo uma delas mecânica, porque uma associação de amputados questionou isso. Por que ele precisa sofrer? Por que não mostrar um Saci forte e recuperado? Alegaram capacitismo.

PRODUTOR

E não podia ser alguém mais jovem?

DIRETOR

Um grupo do movimento da terceira idade questionou isso. Disse que a ditadura da juventude não pode prevalecer, que eles precisavam ter o seu espaço.

PRODUTOR

Mas tem a d. Benta que já é idosa.

DIRETOR

Então, a gente precisava falar sobre isso mesmo. (Chama) Entra, d. Benta!

Entra uma travesti.

DONA BENTA

Cadê Pedrinho?

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