Site divulga o diário do "Trem da Literatura"

A primeira coisa que o escritor Ales Steger viu em Lisboa foi um Jumbo, que parecia querer pousar no apartamento ao lado do seu, no 19.º andar de um hotel da capital portuguesa. Com outros 99 escritores europeus, o esloveno partia para uma viagem de trem pelo continente. Saiu de Lisboa, passou por Madri, Paris, Lille, Bruxelas, Moscou, Minsk e outras 11 cidades da Europa, antes de chegar ao seu destino, Berlim, 40 dias depois.Ele estava no trem da literatura que percorreu, em junho e julho deste ano, mais de 7 mil quilômetros em estradas de ferro. O trajeto é o mesmo do expresso Norte-Sul, uma tradição no século 19. O dia-a-dia dessa aventura literária pode ser encontrado em inglês, na Internet. No site www.literaturexpress.org há o diário de viagem. Mas o objetivo primeiro da empreitada é que cada um deles escreva um texto, de aproximadamente 15 páginas, sobre o continente. O resultado será apresentado ao público na Feira de Frankfurt de 2001 e traduzido para todas as 98 línguas européias."Estávamos como convidados de um casamento que não sabem quem são os parentes do noivo e os da noiva", explicou o irlandês (do Norte) Glenn Patterson antes que o trem partisse de Lisboa.No quinto dia da viagem, em Madri, o húngaro László Garaczi identifica problemas que atrapalhariam a maioria: "Pouco tempo, impressões rápidas, ausência de amores e da família. E sempre o dilema: escrever ou viver?". Dois dias depois, em Bordeaux, a búlgara Verginija Zaharieva já perguntava aos transeuntes: "Em que país estou?". Na França, ainda na primeira das seis semanas de viagem.Mas nem tudo eram percalços. No dia em que o trem deixou Bruxelas com destino a Dortmund, Peeter Sauter, nascido na Estônia, resolveu escrever no diário de viagem alguns dos poemas que fez durante a viagem. Num deles, descreve a atenção que lhe foi dispensada por uma criança com síndrome de Down, em Lille: "- Quem é você/ Eu disse - Peeter Sauter/ - E o que você é/ - Escritor na Estônia/ - Você é famoso?/ Ninguém é famoso na Estônia".Pouco depois, Sauter ouviu um comentário entre as crianças do grupo, que diziam ser ele o famoso escritor da Estônia que dizia que ninguém era famoso naquele País.Como a quase totalidade dos autores do expresso literário, em busca dessa tão procurada identidade européia, Peeter é um desconhecido escritor, pelo menos para o público brasileiro. O site fornece uma pequena biografia de todos os participantes, o que nem sempre ajuda a avaliar a real importância de seus trabalhos. Mas o diário, que também apresenta fotos dessa espécie de "No Limite Literário", é uma obra coletiva, espelhando um pouco da utopia pan-européia.

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