Siron impregna telas com pesadelo

Inspiração de mostra Segredos, no Rio, vem de incidente que traumatizou o artista, em 2001

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2010 | 00h00

QUEM É

SIRON FRANCO

ARTISTA PLÁSTICO

CV: Gessiron Alves Franco nasceu em 1947 em Goiás Velho. Fez cursos livres de pintura ainda adolescente. Ganhou uma série de prêmios no Brasil e no exterior. É também escultor. Tem mais de 3 mil peças criadas, que já freqüentaram bienais de vários países.

Em 2001, o casamento de seu filho com uma venezuelana levou o artista plástico goiano Siron Franco a Caracas. Assim que ele pousou, entrou num pesadelo: o táxi que deveria levá-lo do aeroporto era dirigido por um bandido, que o manteve refém por três horas. O homem achou que se tratava de um milionário em visita ao país. O incidente traumatizou Franco de tal forma que deixou ecos em sua produção mais recente, como se comprova na exposição Segredos, em cartaz na Caixa Cultural do Rio desde a última terça-feira, até 11 de julho.

O Primeiro Segredo é uma tela pintada com carvão e aplicações de 17 CDs. A imagem remete ao cartão magnético que Franco usava como chave do hotel em que ficou na Venezuela, todo perfurado. Exposta em sua última mostra no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, há três anos, a obra indicou o caminho para outros segredos.

A partir dela, surgiu uma série de 15 telas, diante das quais se tem a impressão de que há algo encoberto, escondido, secreto.

"Quando eu voltei da viagem, fiquei meio louco por um tempo, não parava de falar, parecia que estava usando drogas. Trabalhei para me livrar daquelas lembranças. Anos depois senti que aquele trabalho poderia render outros caminhos, mas ainda demorou", conta Franco, que cria suas telas no ateliê que mantém numa chácara em Aparecida de Goiânia, perto da capital de Goiás, onde fica recluso e esquece do tempo.

As telas trazidas ao Rio foram preparadas nos últimos três anos. Desde o fim de 2009, ele se dedicou a elas mais intensamente. Franco começou a preparar vários quadros de uma vez. Depois de um período inicial de secagem, as telas foram viradas para a parede, para que as cores não se misturassem aos olhos do artista, embaralhando sua visão. Franco então voltava a cada uma delas - em alguns casos, a pincelada inicial ainda pode ser vista; noutros, está encoberta por camadas e camadas de tinta a óleo.

Boa parte dessa produção foi descartada. Franco sabia o que não queria, mas não conseguia chegar à essência do que buscava dizer. Chegou a pensar em cancelar a data já acertada com a Caixa Cultural.

"Sempre penso que meu compromisso maior é comigo. Eu não posso chegar aqui mentindo", justifica o artista, que, passado o bloqueio, alcançou não só com os óleos, mas também com esculturas aquilo que desejava.

Lembranças. Uma delas é uma mala de ferro de 800 quilos, que está na galeria, junto às telas. No foyer, uma "fogueira" de 2,5 metros de altura, produzida com peças de mármore sintético traz imagens de santos incrustadas em suas vigas. São lembranças das festas de sua infância, na cidade histórica de Goiás Velho.

Mais à frente, uma imagem de ferro cromado se completa com o reflexo que se vê nos 50 litros de óleo diesel que cobrem uma estrutura que parece um caixão. Quem vê de longe jura que é uma cruz católica, mas a forma é de uma gilete. Mistério. Segredos chega à Caixa Cultural de São Paulo em setembro; em outubro, a mostra será aberta em Brasília.

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