Siron Franco prepara instalação sobre a intolerância

O cotidiano provoca um forte impacto na sensibilidade do artista plástico goiano Siron Franco. Há três meses, incomodado com a série de notícias sobre morte veiculadas na televisão, ele teve uma repentina visão, em que corpos se acumulavam indistintamente. "Foi antes do atentado contra o World Trade Center, mas a imagem teve a mesma força", comentou Franco, que prepara, desde então, a instalação Intolerância. A mesma crítica social inspirou a produção de outro trabalho, Cerâmicas, que desde ontem está exposto no Teatro Nacional, em Brasília. "Gosto de trabalhar com diversos tipos de material e quase sempre inspirado pela atualidade."A realidade, de fato, deixa marcas profundas no trabalho de Franco. Nos anos 80, por exemplo, montou uma instalação com antas, chamando atenção para a grave crise da questão ambiental. Criou também o monumento ao índio Galdino, que foi queimado vivo por um grupo de adolescentes, nos anos 90. E ainda montou a instalação escatológica em frente do Congresso Nacional, onde um painel com excrementos expressava o sentimento da nação diante das denúncias de corrupção, que marcam a política brasileira neste ano. Na exposição recém-inaugurada em Brasília, o tema é mais leve, mas não menos crítico. São 700 placas de cerâmica, no formato 30 cm x 40 cm, em que o artista deixa sua marca: são desde desenhos de animais humanizados até homens bestializados. Um dos destaques é uma versão da Pietá, em que as cores do Cristo estão fragmentadas enquanto o vestido da Virgem é de uma coloração densa. "Além de representar minha volta à pintura, pude aprender a difícil arte de trabalhar com cerâmica", conta Franco. Segundo ele, o fogo utilizado para endurecer o barro modifica a tonalidade das cores, o que exige do artista um profundo conhecimento sobre misturas para evitar surpresas desagradáveis. De tanto estudar e observar as mudanças provocadas pelo calor, Siron Franco conseguiu executar proezas, depois de 40 dias de aprendizado. "Consegui o fosco e o brilhante juntos, o que é considerado difícil pelos especialistas em cerâmica", explica. As peças que estão expostas no mezanino da Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília, e que deverão vir a São Paulo no próximo ano, pertencem, na verdade, à coleção do empresário Dilor de Freitas, da indústria Cecrisa. Em 1987, ele convidou o artista a realizar a experiência entre a criação e a dinâmica do processo industrial de produção de cerâmica. Franco aceitou e, depois de um árduo trabalho de 45 dias, criou mil placas. "Na verdade, o número é maior, mas eu quebrei as peças que não me agradaram." Disposto a exibir em público o trabalho, o empresário sugeriu a Franco realizar a exposição. Empolgado, ele não apenas aceitou como fez a seleção de 700 placas, pois o local escolhido não consegue abrigar toda a coleção. "É admirável que um colecionador decida abrir as obras para visitação pública", comenta Franco, que não sabe ainda quantas peças poderá trazer a São Paulo. "Dependo do espaço disponível do local definido." Brechós ? A capital paulista deverá abrigar também a instalação Intolerância, na qual Franco pretende exprimir seu inconformismo com o perigoso crescimento de sentimentos discriminatórios. "Depois que tive a rápida visão de corpos acumulados, não sosseguei enquanto não começasse a trabalhar com essa idéia", conta. "Com isso, tive de parar até com meu novo trabalho com pinturas." Assim, passou a percorrer brechós para comprar roupas e sapatos usados. Comprou também espuma suficiente para servir de enchimento. A idéia é ter cerca de 600 bonecos, formados com aquele material, e empilhá-los indistintamente. "O fato de ser roupa e sapato usados dá mais autenticidade, pois, em algum momento, foi um material utilizado por alguém." O ataque terrorista ao World Trade Center só fermentou suas idéias, principalmente depois do desabamento das duas torres. "Foi um momento terrível para os homens e, por um instante, percebi que lá acontecia um empilhamento semelhante ao da minha obra", comentou. "Isso só aumentou o tom da minha crítica contra essa luta entre pessoas de credos diversos." Depois de terminado esse trabalho, Siron Franco vai se juntar ao jornalista e ambientalista Washington Novaes e ao músico Egberto Gismonti para realizar uma nova produção. "Ainda vamos nos reunir para discutir detalhes", conta ele, sem dar maiores explicações. "Mas garanto que, certamente, será uma nova forma artística de encarar a realidade."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.