Siron Franco, dez anos depois, expõe em SP

Há uma década que Siron Franco não fazia uma exposição individual na cidade. Para matar as saudades e mostrar que continua inovando aos 53 anos e mais de três décadas de carreira, o artista goiano mostra seus Casulos em curta temporada na Galeria Nara Roesler. As 24 peças dessa mostra, que vem circulando pelo mundo (já tendo sido vista em Brasília, Londres, Porto Alegre), dizem muito sobre sua arte, mas ficam em cartaz por menos de duas semanas na galeria paulista.Assim como em Peles, sua última individual em São Paulo, o artista elabora nesses trabalhos um discurso plástico visceralmente ligado ao mundo que o cerca. Não se trata aqui de um manifesto de cunho político, como as intervenções extremamente críticas que revelam as mazelas do nosso país com uma precisão cirúrgica e que se tornaram sua marca registrada. Nem de uma investigação pictórica mais formal. Aliás, ele se diz cada vez menos interessado em questões caras à arte contemporânea, como o debate entre abstração e figura. Trata-se, sim, de uma obra repleta de símbolos, que mimetiza a natureza, transformando em arte seu poder criador."Ele é vida, é morte, transformação, mutação", explica o artista. "Meu trabalho caminha cada vez mais para uma coisa ritualística. A arte para mim é uma forma de religião", acrescenta. Siron não se atém a regras ou dogmas. "O meu negócio é fazer coisas que não fiz ainda, para que não vire profissão", diz. Da mesma maneira que encara todo trabalho com um espírito de novidade, há um caráter cíclico, de retroalimentação, em sua obra.A origem dos casulos, por exemplo, data da década de 70, quando fez uma série de quadros relacionados com essa forma. Só em meados do ano passado que a investigação ganhou uma forma tridimensional. Siron construiu enormes estruturas de metal, recobertas de tela, e sobre elas aplicou os mais variados materiais - terra, folhas de ouro, penas, fumo de rolo, couro de peixe, etc. Na sua última escultura da série, realizada recentemente para a Universidade de Essex a pedido da crítica Dawn Ades, autora de um livro sobre a obra de Siron (e que não está na mostra de São Paulo), o artista associou o cabelo de sua filha à crina de cavalo e ao rabo de vaca. Todo o processo de criação foi filmado.Outro aspecto interessante desses trabalhos é que, apesar de serem volumes no espaço e da formação "renascentista" do artista, eles pertencem ao domínio da pintura. São mais depuradas, sem tantos elementos figurativos como as telas que o paulistano teve a oportunidade de ver na retrospectiva do artista organizada em 1998, pela Pinacoteca do Estado. Mas é indiscutível que essa é a linguagem por excelência de Siron. "Costumo dizer que a pintura é meu grande rio, que tem seus afluentes", afirmou ele em entrevista concedida por telefone de Goiás, terra natal que nunca abandonou, apesar de perambular pelo mundo como "um bicho-carpinteiro".Agora mesmo ele se prepara para viajar para a Inglaterra - logo após a abertura da mostra paulistana - para iniciar uma nova série de pinturas nas quais pretende refletir sobre a visão do colonizador sobre o colonizado. "Será uma espécie de crônica visual. Quero fazer trabalhos similares em Portugal, Holanda e Espanha; sobre essa gente que continua sugando a gente até hoje", conta ele, mostrando o mesmo espírito crítico do jovem que teve sua primeira exposição fechada pela polícia.Apelido - O ano era 1968 e ele participava da 2.ª Bienal de Artes Plásticas de Salvador, que ficou apenas poucas horas aberta ao público. Siron - que começou a fazer arte ainda garoto entrando como ouvinte para a Universidade Católica de Goiás aos 12 anos - teve de ficar uma semana e meia escondido no hotel e só não foi preso porque na verdade se chama Gessiron. A mania dos goianos de abreviar os nomes (ele só soube como se chamava realmente aos 5 anos, ao entrar para a escola) salvou sua pele.Salvador, onde mantém um estúdio, acabou se tornando um de seus vários portos seguros. O fato de não ter mercado em Goiás o obriga a estar sempre viajando para mostrar seu trabalho. O corre-corre é tanto que Siron ainda não conseguiu inaugurar seu estúdio na Avenida São Luís, em São Paulo.Além da série sobre o olhar do colonizador, o artista vem desenvolvendo outros projetos, como as vinhetas para uma série de programas sobre o lixo a ser veiculado pela TV Cultura no próximo ano. Também estão previstos para 2001 alguns eventos sobre aquele que é considerado um dos maiores e mais autênticos artistas brasileiros. A escola de samba carioca Caprichosos de Pilares, por exemplo, dedicará uma de suas alas a ele.Também está previsto para o ano que vem o lançamento do livro Césio, de Angélica de Moraes, que versará apenas sobre a série homônima, um de seus trabalhos mais importantes sobre o tragédia ambiental que ocorreu em sua cidade natal.O catálogo raisonné (que reunirá toda a sua produção) a ser editado pela Cosac & Naify - o editor Charles Cosac é um de seus maiores colecionadores e um grande admirador de Siron Franco - deve ficar para 2002. "Comecei muito garoto e minha obra está muito espalhada pelo mundo", explica o artista. Sua enorme produção também não facilita o trabalho de catalogação. "Não adianta, sou capturado por essas imagens, situações e formas", conclui.Siron Franco - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. Avenida Europa 655, tel. 3063-2344. Até 2/12. Abertura às 21 horas.

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