Sinval Medina recria os altos e baixos da vida de Cristóvão de Abreu

Livro conta a história do "Rei dos tropeiros", desde sua chegada ao Brasil, em 1700, até os últimos dias de vida

André Luis Rodrigues,

03 de agosto de 2012 | 19h57

A notícia do famigerado terramoto que se abateu sobre a cidade de Lisboa em 1755 só chegou ao Brasil em janeiro do ano seguinte. Vinte dias depois da tragédia, um português que vivia em Rio Grande de São Pedro, Cavaleiro da Ordem de Cristo, morreria sem saber do ocorrido. Contudo, um dia antes do fatídico acontecimento na capital lusitana, uma visão que lhe prenuncia a morte próxima alude ao bulício que se instalará nas "Divinas Cortes", tomadas pela "grande cópia de pecadores" prestes a chegar.

Com esse prodigioso episódio, começa a narração de O Cavaleiro da Terra de Ninguém: Vida e Tempos de Cristóvão Pereira de Abreu, de Sinval Medina. O livro conta a história do "Rei dos tropeiros", desde sua chegada ao Brasil, em 1700, até os últimos dias de vida, passados na vila que teria ajudado a fundar. À medida que se desenrolam os fatos ocorridos entre esses dois pontos extremos, é grande a frequência com que o narrador, tratando-o por "Vossa Mercê", informa ao leitor não dispor de informações precisas ou mesmo vagas sobre este ou aquele episódio da vida do herói e epônimo, acrescentando preferir calar a inventar um acontecimento qualquer para preencher inevitáveis lacunas de sua crônica. Mesmo que em diversas passagens a fabulação se mostre inequívoca no tecer e no entretecer dos retalhos de fatos que devem ter sido garimpados a muito custo nos arquivos sempre precários de nossa desprezada memória, ainda mais a de um período tão distante, o leitor pode talvez indagar-se sobre qual seria o lugar mais próprio da invenção em um livro que tem como protagonista uma figura histórica e que é resultado da opção do autor por escrever um romance ou uma "biografia romanceada", como consta da quarta capa, e não uma biografia tout court, isto é, para recorrer à conhecida distinção aristotélica, por não apenas narrar o que aconteceu, como também representar o que poderia acontecer ou ter acontecido.

A resposta parece encontrar-se justamente naquele que nos fala. O narrador, de quem não sabemos o nome, revela-se a cada momento da narração. Tão temente a Deus quanto fiel ao rei de Portugal, execrador dos espanhóis como dos jesuítas, piedoso face ao destino do "negro da terra" como indiferente ao fado do negro africano, vai narrando as aventuras de maneira saborosa e peculiar, quase como quem conta um causo. A linguagem que emprega, manejada pelo autor à perfeição, mistura preciosismos e vulgaridades, provérbios populares e latinismos, em constante diálogo com o leitor, a quem não se cansa de agradecer a atenção e de se desculpar pelas supostas escassez de seu engenho e indigência de sua crônica. Como nas histórias de antanho, as repetições, recolhas e condensações são uma constante, como o são as comparações - que uma vez o cronista mesmo reconhece o exagero - de nossa quase sempre acanhada história com episódios tomados à história e à mitologia grega e romana, ou à Bíblia, a Homero e a Camões.

Não se pense, porém, que a narrativa revelará apenas atos heroicos do valoroso cavaleiro. A epígrafe tomada ao Dom Quixote já prevenia contra o engano: "no hay historia humana en el mundo que no tenga sus altibajos, especialmente las que tratan de caballerias". Ao lado da bravura demonstrada por Pereira de Abreu na resistência ao cerco da Pérola do Prata pelos espanhóis de Buenos Aires, ou da intrepidez na crucial abertura ou consolidação do caminho terrestre entre o Rio Grande e São Paulo, é narrado o modo como acaba por embolsar os recursos deixados pelo amigo morto em vez de enviá-los à viúva e às filhas, ou o episódio da malograda tentativa de tornar-se familiar do Santo Ofício, ou ainda a negociação, provavelmente interessada, com o invasor francês do Rio de Janeiro dos bens tomados a seus moradores.

O heroísmo que caracteriza o Cavaleiro desbravador dos pampas gaúchos, por sinal, não é nunca desinteressado. Ainda que tenha sido ao fim da vida nomeado coronel e lhe tenha sido entregue em São Paulo um destacamento, posto que o mais maltrapilho que já se viu, para combater os castelhanos no extremo sul do País, será ele sempre lembrado como homem de grosso trato, comerciante e empreendedor, o que na época significava igualmente contrabandista e sonegador. É graças a esse espírito que realizará seus grandes feitos, como o pioneirismo no confinamento de animais, que antes viviam ao deus-dará nos campos da Terra de Ninguém, e em seu transporte por terra, do extremo sul até a famosa feira de Sorocaba, que se tornaria o principal núcleo de abastecimento de rebanhos para suprir o ávido mercado das Minas Gerais.

A notável recriação do modo de vida de período tão longínquo e a cuidadosa exposição de episódios fundamentais da história brasileira e lusitana são outras qualidades do livro recém-lançado de Sinval Medina. Ao criar um narrador com inegável talento como contador de histórias e sem grande distanciamento dos fatos narrados, o escritor deixa ao leitor, a par da fruição estética, o inescapável exercício da crítica sobre nossa história.

ANDRÉ LUIS RODRIGUES É DOUTOR EM LITERATURA BRASILEIRA PELA USP E AUTOR DE RITOS DA PAIXÃO EM LAVOURA ARCAICA (EDUSP)

 

O CAVALEIRO DA TERRA DE NINGUÉM: VIDA E TEMPOS DE CRISTÓVÃO PEREIRA DE ABREU

Autor: Sinval Medina

Editora: Prumo

(432 págs., R$ 39,90)

 

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