SINTONIA FINA

Festival carioca Novas Frequências aponta direções para uma música exigente e de propostas sem limites

ROBERTO NASCIMENTO , RIO DE JANEIRO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h12

Pequenino porém valente, o festival Novas Frequências chegou aos 45 do segundo tempo para injetar entusiasmo na monotonia que permeou grande parte das excursões de bandas estrangeiras pelo País este ano. A primeira edição do evento, realizado no Rio, traz, até amanhã, seis nomes nacionais e importados que atuam em variados fronts da música contemporânea, do instrumental de Sun Araw, ao eletrônico de Andy Stott e Psilosamples, ao oitentista lo fi de Com Truise, que toca hoje. Todos espremem não mais que cem pessoas no compacto teatro Oi Futuro Ipanema - embora um pouco mais de sagacidade por parte de promoters cariocas e paulistanos pudesse ter trazido o evento a casas maiores.

O Sun Araw, banda experimental de fina e acessível produção, deu o pontapé inicial no evento nesta quarta-feira à noite, com uma instigante massa de som que propôs afrobeat, hip hop contemporâneo, mantras e rock psicodélico. Durante uma hora e meia, o sarau lisérgico do grupo foi do meditativo ao esfuziante.

Os músicos Cameron Stallones (guitarra e teclado), Alex Gray (guitarra e sampler) e Barrett Avner (Shaahi Baaja, uma espécie de banjo indiano, tocado em cima de um suporte) constroem densas camadas que pesam como a umidade de uma floresta tropical, e se expandem infinitamente em direção ao cósmico. As músicas são improvisos com algum esboço de estrutura. Ao vivo, dão a sensação de que os músicos estão sendo apenas regadores de um jardim musical em que fauna e flora fogem do controle do criador.

Mas isso, logicamente, é ilusão. Stallones e seus comparsas sabem bem onde querem chegar com as músicas (algumas tocadas na veia psicodélica do ótimo disco Heavy Deeds, de 2009), o que faz com que a experiência do show seja mais sensual e acessível do que se acostumou esperar de bandas de rock experimental.

Fora a vibração estética da apresentação, a importância de uma banda como o Sun Araw em um pequeno porém valente festival brasileiro é também geográfica. A banda é oriunda da efervescente cena musical de Los Angeles, que tem dado mais o que falar do que o incensado Brooklyn nos últimos anos. Com um custo de vida bem mais acessível, L.A. é estuário de cenas como a do selo Brainfeeder, chefiado pelo revolucionário beatmaker Flying Lotus.

Além de haver uma forte influência deste no próprio som do Sun Araw, a conexão torna-se ainda mais interessante pelo fato de que o produtor brasiliense Pazes, que toca no Novas Frequências de amanhã, é cria direta do Fly-Lo. L.A. também é a relevante terra mãe do hypnagogic pop, vertente do pop nostálgico encabeçada por Ariel Pink e James Ferraro, que, além de se basear em sons lo fi oitentistas (influência forte no som do Com Truise, que toca hoje), tem jogado com a sensação de memória como um artifício artístico. "Los Angeles é um lugar propício para construir o seu próprio universo", contou Stallones ao Estado, antes do show. "É bem fácil organizar uma situação criativa por lá. Você pode ficar intensamente isolado", completou, ao que o guitarrista Alex respondeu: "Cara, eu sou preguiçoso pra caramba e vivo perfeitamente bem em Los Angeles (risos). Já Nova York...."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.