Síntese de realismo e do gênero fantástico

Trabalhar Cansa comprova que o cinema é instrumento crítico do real

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2013 | 02h08

O lançamento de Trabalhar Cansa em DVD (Lume) permite a revisão de um dos mais interessantes filmes brasileiros dos últimos anos. Dirigido pela dupla Juliana Rojas/Marco Dutra, o longa se situa em ponto excêntrico ao atual dilema do cinema brasileiro: ora produzimos para a tela grande o "mais do mesmo" televisivo, cortejando o mercado de maneira subalterna; ora, por reação, contemplamos um experimentalismo estéril, destinado aos egos do diretor e seu círculo de amigos, e também a uma crítica de aduladores. Quem fica de fora nos dois casos? O público, submetido ora ao pragmatismo da rotina ora à irrelevância que passa por vanguarda.

Trabalhar Cansa busca seu espaço em outra parte. Síntese de realismo e gênero fantástico, inova na linguagem cinematográfica, sem esquecer que o cinema não é mero exercício formal, mas também instrumento crítico do real.

A trama fala da trajetória divergente de casal. Ele acabou de ser demitido da empresa e começa a se sentir à margem da sociedade. Ela decide realizar o sonho do negócio próprio e abre um mercadinho.

Otávio (Marat Descartes) e Helena (Helena Albergaria) não sabem, mas têm sonhos e pesadelos complementares. Ele perde sua referência social ao ser desligado da empresa. Ela, muda de perspectiva e atitude ao passar de dona de casa a patroa. São alterações subjetivas que geram consequências na vida prática. O filme mostra algo que se poderia definir como o progressivo embrutecimento de marido e mulher. Perdendo o papel de provedor, ele perde o rumo e, por reação, muda seu relacionamento com as pessoas. Ela, progressivamente desumaniza-se no contato com seus empregados.

O próprio estabelecimento comercial que ela começa a explorar torna-se, de certo modo, uma metáfora dessa perda de humanidade. Por exemplo, há nas paredes uma estranha umidade que não para de crescer e não parece ter causa aparente. O ambiente começa a tomar o ar fantasmagórico e pressente-se a existência de monstros, reais ou imaginários a assombrar o local. O mundo torna-se estranho para uma pessoa que se tornou estranho a ele, como Helena.

Nada disso se dá por acaso, ou por mero divertimento da dupla de diretores. O que se nota é um agudo comentário político sobre o nosso tempo e o nosso modo de ser no vácuo do ultra capitalismo moderno. Nesse mundo em que as relações se liquefazem, para usar um tema caro ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Não existe espaço humano num ambiente em que as relações de patrão e empregado se estereotipam pela hierarquia e as corporações funcionam segundo preceitos fascistas - como bem detectou o cineasta francês Nicolas Klotz em A Questão Humana. É dessa anomia monstruosa, com aparência de normalidade, que fala Trabalhar Cansa, estupenda estreia de dois jovens diretores.

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