Singularidade e ousadia marcam peças em Rio Preto

Audiotour Ficcional e Braakland são experiências profundas e inesquecíveis

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2007 | 05h06

Termina sábado o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT) com balanço positivo tanto na programação nacional quanto na internacional. Desta última, dois espetáculos merecem destaque pela qualidade intrínseca da criação e pela forma como mobilizam o espectador. Para ver Braakland, da companhia holandesa Dakar foi preciso pegar um ônibus com itinerário desconhecido. Após percorrer 12 quilômetros, chega-se à beira de um descampado. Começa aí uma caminhada, a pé, por mais dois quilômetros, em meio à vegetação rasteira, espinhosa, até a arquibancada, montada no meio do mato. A sensação é de estar no meio do nada, o horizonte bem longe dos olhos, na vasta planície. Pássaros vez por outra sobrevoavam o terreno fazendo alarido.A partir daí, acompanhamos durante 55 minutos a movimentação de nove atores, que surgem aos poucos, mas mantêm distância de cerca de 50 metros do público. A distância é linguagem nesse espetáculo sem palavras. A espacialidade é dramática, expressiva. É grande o afastamento também entre os personagens, uma gente que remete às figuras de catadores de lixo, uma imagem de abandono que nos é familiar nos noticiários, mas que ali se torna estranha e, por isso mesmo, nos mobiliza a atenção.A geografia escolhida, recriada, permite o isolamento dos personagens, mas a cada vez que um caminha em direção ao outro, o espectador é tencionado, pois o grupo consegue instaurar com atitude corporal uma atmosfera de hostilidade. Na primeira ação, propriamente dita, quando um homem cai morto - Cansaço? Fome? Doença? -, imediatamente os outros vão até ele, e saqueiam suas roupas. Como contraponto, um personagem, a julgar pelas roupas alguém menos miserável, um pouco mais aquinhoado pelas benesses da civilização, sobretudo as imateriais, tenta uma troca humana, tenta afeto, tenta comunicação. Inútil. Ali um homem, ou mulher, só se aproxima do outro para tirar alguma coisa em seu próprio proveito. A cena derradeira, de solidão inimaginável, é imagem para se carregar nas retinas por muito tempo.Nos mobiliza de maneira oposta o espetáculo argentino Audiotour Ficcional. Neste, o espectador, único, recebe numa tenda na praça central da cidade um fone de ouvido. Uma vez ligado, devemos seguir as instruções ouvidas durante uma caminhada de 90 minutos pela cidade. Ariel Dávila e Chistina Ruf, os criadores do tour, chegaram um mês antes à cidade onde fizeram uma pesquisa histórica. Assim, o espectador entra na catedral da cidade para conhecer, na verdade, a história da antiga matriz incendiada. Há uma trama policial, supostamente estamos ouvindo a gravação deixada por alguém, cuja vida estava ameaçada justamente pela investigação que fazia. Alguém quer que percamos a memória é o mote da gravação. Quem? Com que interesse? As respostas o espectador é levado a procurar em si mesmo.Poderia ser um tour histórico quase banal, não fosse a sensibilidade na escolha de detalhes arquitetônicos - uma placa que faz citação a um salmo, três incríveis imagens de sereias - e a forma como a dupla ''''trabalhou'''' sobre a história de Rio Preto. A grande qualidade desta criação singular está no trânsito que provoca no espectador entre a memória mítica e a particular. Mais que a Rio Preto, o tour nos religa a um imaginário coletivo e valoriza, em nós, o resíduo individual dessa memória comum. Quem viveu essa experiência, certamente não a esquecerá.

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