Singeleza habitual em melodias e versos certeiros

Desde 1999, com o lançamento do Los Hermanos, com álbum homônimo, o posterior estouro de Anna Julia, mais três discos seminais para a música popular brasileira com a banda e sua estreia em carreira solo, com Sou, tudo o que Marcelo Camelo se propõe a fazer musicalmente desperta uma euforia gigantesca em milhões de pessoas. Na curiosidade em saber o que virá no próximo trabalho do compositor, as pessoas ficam se perguntando: será que ele vai evoluir? Será que vai fazer um disco mais introspectivo como o Sou ou vai voltar à sonoridade mais popular - não confundir com popularesca - impressa pelo Los Hermanos? Após o lançamento, como o de Toque Dela, agora, o público expõe julgamentos e teorias extremamente claras e maniqueístas, como que para marcar uma posição definida a favor ou contra Camelo.

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

Deixemos essa questão de evolução ou não para Darwin. Acontece com todo mundo. A ideia está nos versos de Paulinho da Viola, ao dizer que o mundo passa por nós todos os dias. Com Marcelo Camelo não é diferente. Em Toque Dela, ele expõe novamente um retrato de suas vivências cotidianas, com extrema sinceridade. Como ele mesmo costuma definir, "a música é a impressão de sentimentos por meio de ondas sonoras".

O segundo disco da carreira solo do vascaíno criado em Jacarepaguá, dá provas mais uma vez de que o compositor está inegavelmente entre os mais significativos de sua geração. Em relação a Sou, que tinha 12 temas (além de duas versões ao piano excepcional de Clara Sverner para Saudade e Passeando), Toque Dela é um pouco mais breve, com dez faixas bem distintas entre si, mas que dão uma unidade, um clima pra lá de coerente ao disco como um todo.

Assim como no álbum anterior, que tem participações como a de Sverner, Dominguinhos e de Mallu Magalhães, o novo CD de Camelo contou com um time de respeito na parte instrumental: além do Hurtmold, que gravou sete temas com o compositor, o disco tem ainda a presença de Marcelo Jeneci, no piano e na sanfona, Alexandre Kassin, nas guitarras, e um naipe de metais de impor respeito em qualquer lugar do mundo, com nomes como Rob Mazurek (cornet), Jessé Sadoc (trompete e flugel horn), Zé Canuto (sax) e Eliezer Rodrigues (tuba). Mallu Magalhães tem papel discreto no coro de Vermelho.

Como Camelo pretendia, os instrumentos em cada música soam mais estanques uns dos outros em comparação com o trabalho anterior. Ele mesmo se encarregou de gravar vários, como guitarra, violão de aço, de nylon, bateria, glockenspiel (metalofone), ukulele, clarone e percussão. O resultado é a exploração de diversas texturas instrumentais que acabam por amparar melodias facilmente assimiláveis, sem dispensar os habituais lirismo e beleza.

Nessa linha, diversos temas já surgem com grande força. A escolha de ôô como single foi absolutamente acertada, é uma das que mais têm cara de "hit". Vai ter de "disputar" com tantas outras, como Acostumar, Pra Te Acalmar, Despedida (que já havia sido gravada por Maria Rita e vinha sendo interpretada por Camelo e Hurtmold nos shows da turnê de Sou) e Meu Amor É Teu, faixa de encerramento do disco.

Embora aponte para caminhos diferentes, se Sou já passava longe de ser hermético, Toque Dela, sob esse aspecto, segue na mesma linha. Menos "pra dentro" do que o último CD, o novo trabalho soa um pouco mais pulsante, sim, com timbres de guitarra muito bem escolhidos e arranjos cuidadosos e que funcionam.

Com dificuldades de fazer parcerias para compor, Camelo "cedeu" naturalmente à singeleza da letra de Três Dias, feita por André Dahmer. Em relação aos versos criados pelo próprio autor do disco, sem muitas novidades, que, neste caso, é bom. Entre picos e vales de sentimento e de momentos - assim como a dinâmica dos arranjos, Toque Dela tem passagens marcantes. Versos dignos de serem emoldurados. Entre eles, os certeiros e de plena entrega de A Noite ("Triste é viver só de solidão"), ôô ("Vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval), Vermelho ("Mas você me chama pro mundo/ E me faz sair do fundo de onde eu tô" e "trago nestes pés o vento pra te carregar daqui"), Despedida ("Filho de sol poente quando teima em passear/ Desce de sal nos olhos doente da falta de voltar") e Meu Amor É Teu ("Meu amor é teu, mas dou-te mais uma vez, meu bem/ Saudade é pra quem tem").

Versos e instrumental casados, sendo um tapa na alma de quem ouve. Toque Dela desponta como um dos discos mais belos de 2011.

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