Sinfônica renasce com Rocha

Se você não dá valor ao que o outro faz, como pode cobrar que os outros deem importância ao seu trabalho? Essa pergunta me martelou os ouvidos domingo, na Sala São Paulo, enquanto saboreava o ótimo concerto de estreia de Abel Rocha à frente da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2011 | 00h00

De fato, sem casa, sem maestro, a OSTM foi perdendo aos poucos qualquer resquício de dignidade. Mas mostrou, conduzida por Rocha, que é uma orquestra de respeito. Há muito tempo não se via dela nada de nível profissional. O que ocorreu no domingo significou que os músicos obedeceram a três mandamentos: 1)tocar com comprometimento; 2) ligar-se no que ocorre no pódio; 3) ter consciência de que todos estão no mesmo barco e que boicotes só contribuem para um suicídio artístico coletivo.

Tudo isso me passou pela cabeça enquanto assisti a pelo menos uma rara performance: a da soprano Eiko Senda interpretando Quatro Últimas Canções de Richard Strauss. Na terceira, Adormecendo, sobre poema de Hermann Hesse, ela esteve iluminada. No pódio, um maestro que sabe acompanhar cantores. Rocha fez a orquestra acariciar a belíssima voz de Senda.

Um momento sublime de um concerto que começou festivo, com a abertura da ópera Os Mestres Cantores de Richard Wagner. Pequenos deslizes não comprometeram o renascer da OSTM. Na segunda parte, uma peça sacra juvenil de Puccini, a Messa di Gloria. Não é uma obra-prima, mas deu nova chance para o Coral Lírico mostrar-se afiado e reafirmar seu imenso potencial (na semana passada, unira-se ao excepcional Coro da Osesp da formidável Naomi Munakata na execução da Nona de Beethoven com a Osesp). Os solistas, competentes e donos de belas vozes, passaram incólumes por uma partitura fácil e previsível: o tenor Miguel Geraldi, o barítono Leonardo Neiva e o baixo Sávio Sperandio.

O saldo final é positivo. É incrível, mas a OSTM só precisava de bom senso. Foi o que Abel Rocha usou para fazer a OSTM reencaixar-se nos trilhos. Primeiro: abandonou o inadequado Cine Olido (lembrou-me a Osesp no seu pior momento, décadas atrás, fazendo música para as baratas do Cine Copan) e colocou seus músicos no palco mais qualificado do País. Isso certamente mexeu com os brios deles. Não há como fazer corpo mole na Sala São Paulo. Segundo: a orquestra retomou sua vocação original. Corretíssima a atitude de Rocha de escolher obras de compositores líricos.

Tudo isso faz acreditar que ainda é possível não dar vexame nos festejos do centenário do Teatro Municipal. Tomara que não tenha sido uma miragem.

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