Sinfônica Heliópolis parte para 1º concerto internacional

Os músicos podiam não falar alemão. Talvez, por isso, o tempo da expectativa de cada um era ditado pelo ritmo e pela sonoridade das palavras do diretor de programação do canal Deutsche Welle, Gero Schliess, e da diretora geral do festival anual em comemoração a Beethoven, Ilona Schmiel. Mas bastava a tradução para a alegria tomar conta de cada um dos 80 jovens músicos da Sinfônica Heliópolis, ao ser reafirmado a sua fluência plena na única linguagem universal: eles haviam acabado de executar a Oitava Sinfonia de Beethoven, a mesma que será apresentada em outubro no festival em Bonn, cidade do compositor. Será a primeira experiência internacional da Sinfônica, criada em 2004, em mais uma vitória do maestro Silvio Baccarelli. Também apresentarão, pela primeira vez, a música "Cidade do Sol", encomendada pelo canal alemão ao brasileiro André Mehmari.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

29 de abril de 2010 | 10h37

Ontem, os alemães estiveram no Instituto Baccarelli, idealizado pelo maestro após assistir ao trágico incêndio ocorrido em 1996 em Heliópolis, a segunda maior favela da América Latina. Da escola do bairro, onde reuniu os primeiros 36 alunos há 14 anos, até a criação do instituto, 7 mil crianças e adolescentes tiveram oportunidade de sonhar e, muitas vezes, conquistar uma nova condição de vida.

Claudionor de Lima, 23 anos, por exemplo, foi aluno da segunda turma e, hoje, ganha R$ 750 na Sinfônica tocando viola. No dia 6 de outubro, quando estará na Alemanha pela segunda vez, completará 24 anos. "Mas como músico, eu digo 23 sustenido", brinca. No ano passado, ficou cerca de um mês em um castelo medieval na cidade de Pommersfelden, em um programa de estudos promovido pelo Mozarteum Brasileiro, também grande parceiro do instituto.

Desde pequeno, gostava de todo tipo de música e, por volta dos nove anos, começou a tocar corneta na banda de fanfarra da escola Gonzaguinha, porque não havia outro instrumento. Começou a estudar viola com o maestro, também porque era essa a sua única opção à época. Hoje, toca vários, incluindo o cavaquinho, com o qual participa de um grupo de choro com outros quatro amigos da comunidade e um músico de outro bairro. "É o instrumento que, agora, vou levar para a vida toda. Eu arranho um pouco cada instrumento, mas toco mesmo viola."

O menino, que gostava de desenhar e pensava em ser cartunista, já sonhou literalmente duas vezes com música. Acordou, ligou o gravador do celular para tentar salvar a ideia, mas disse que ainda não tem conhecimento para compor, nem pensa em ser maestro. E, as cores que deixou de pintar, ele as sente entre as pautas das partituras. "Já tentei passar para o papel a música em forma de cores, mas não consigo isso." Muitas vezes, sente também uma melancolia instigante ao tocar o Segundo Movimento do Concerto de Bach para Viola e Cielo. "É melancólico, mas eu gosto de tocar o segundo movimento porque eu sinto certa nostalgia. Não que tenha acontecido realmente, mas pode ter acontecido quando era muito pequeno."

Ele disse nunca ter pensado que tipo de música Heliópolis poderia lhe inspirar. Mas o Instituto Baccarelli fica na Estrada das Lágrimas, 2.317. E assim foi batizada quando, debaixo de uma figueira que ainda está lá, as famílias se despediam de seus filhos que se encaminhavam para lutar na Guerra do Paraguai. Os filhos, agora, partem para a música.

Mais conteúdo sobre:
músicaSinfônica Heliópolis

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.