Sinfonias de Shaw

Músico carioca lança Orquestra Simbólica, com diálogo entre rap, erudito e faces de sua personalidade

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2012 | 03h10

A trajetória do rapper Shaw passa por um momento produtivo do hip-hop carioca, vivido como integrante do coletivo Quinto Andar, muda de rumo empurrada pela necessidade de ganhar o pão em um estúdio e deságua em seu apartamento, em São Paulo, onde restaura gravações antigas de música orquestral russa e constrói beats e rimas como os que saem do forno esta semana, em seu segundo disco solo, Orquestra Simbólica.

Trata-se de uma bem-vinda adição à estante de hip-hop autoral, que discute tanto cidadania e corrupção quanto questões de identidade pessoal (lá por meados do disco, surge o Shaw diabólico em conflito com o santo), e tem também um punhado de beats inteligentes, como O Mago, que apontam o rap nacional para direções mais abstratas, calcadas em experimentações sonoras em vez de enfadonhos samples de soul music (curiosamente usados extensivamente por Shaw no disco, mas de maneiras menos óbvias das que costumamos ouvir).

"Uma vez, minha mulher me mostrou um discurso do presidente da Coca-Cola que tinha muito a ver com o que eu estava fazendo. O cara falava da necessidade e dificuldade de equilibrarmos nossa vida profissional, amorosa, saúde, e comparava isto a uma orquestra, em que todos os instrumentos têm de funcionar em sincronia. A partir daí, busquei trabalhar sobre o tema de uma 'orquestra simbólica', em que um personagem principal tenta se equilibrar entre esses aspectos de sua vida."

Vindo de um rapper conhecido desde a adolescência como Shaolin (além de ter os olhos meio fechados, por natureza, o THC colaborava para o look oriental), e que se deixasse crescer um fu manchu não estaria longe de parecer-se com um jovem mestre de kung fu, isso pode soar como conselho zen. Mas no disco toma a forma de múltiplos diálogos internos, intermediados por samples dublados de Matrix e Frankenstein, que estão longe de serem resolvidos.

Há no entanto, um paralelo palpável entre esse "equilíbrio" suado e a arte de Conrado Costa Silva Vieira, carioca de 28 anos. Depois de seus dias no cultuado coletivo Quinto Andar, escola da nata do rap carioca, origem do grupo Subsolo, de Kamau, Lumbriga, Gato Congelado e outros, Shaw ainda lançou seu primeiro disco solo, Ruas Vazias, de 2007, que tem a ótima Neblina. Enveredou, então, para o estúdio para garantir o sustento. Trabalhou como assistente de gravação e subiu pela hierarquia de técnicos de áudio até virar restaurador profissional, limpando chiados de gravações orquestrais da rádio nacional feitas antes do fim da União Soviética.

Hoje, Shaw passa seus dias a serviço do selo holandês Brilhant Classics, dando um talento em Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich e outros. Naturalmente, essa imersão diária em música erudita começou a pipocar em seu trabalho de produtor. Além de beats, todas as vinhetas de Orquestra Simbólica são sampleadas dos mestres russos, o que, misturados a outros cortes de soul e música de filme dá uma dimensão límpida às suas produções.

Parte do disco pode ser ouvida no Soundcloud de Shaw (soundcloud.com/mcshaw/sets/orquestra-simb-lica-vol-1/). Como destaques desse diálogo entre salas de orquestras e black music estão A Fé - Reza Forte, que Shaw fez com Black Alien, e Algo Lindo, que tem participação de Luiz Melodia em meio a recortes de bossa. Os samples são processados de maneira irreconhecível. Um "ah" de Dorival aqui, um órgão de soul recortado ali, um sintetizador de Vangelis acolá: misturas polivalentes em meio ao cânone russo.

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