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Laura Greenhalgh
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Sinfonia tropical

A humanidade parece dividida entre os que guardam e os que descartam. Meu filho diria que eu me alisto no segundo grupo, o do descarte. Quando não se encontra alguma coisa em casa, ele lança aquele sorriso "Ok, jogou fora...". Sua cumplicidade me denuncia. "Você e sua mania de viver leve", me diz. Mas dei-lhe razão dias atrás, depois de passar horas incríveis no escritório de minha amiga Marisa Patrício, uma arquiteta que se revelou talentosa guardiã-da-memória-da-família-do-marido-dela. Complicado, eu sei, mas explico. Há tempos, Marisa vem me falando dos arquivos do pianista alemão Hans Bruch, pai de Gisela Eichbaum, sua sogra (já falecida) e grande pintora radicada em São Paulo nos anos 1930. Num e-mail de Marisa, pressinto que ela vem lidando com uma documentação interessante. E minha amiga alerta: venha ver antes que o material siga para a Deutschen Nationalbibliothek.

Laura Greenhalgh,

17 de agosto de 2013 | 02h16

Imagino encontrar um papelório desgrenhado, como em geral acontece. Encontro uma coleção impecável de pastas, documentos antigos envelopados em folhas brancas, protetores para evitar marcas de clips, livros, fotos e álbuns higienizados, enfim, obra feita com zelo e carinho por Marisa. Separando material sobre Gisela, que será homenageada com outros artistas neste "Ano Brasil" em Frankfurt, minha amiga acabou remexendo as coisas de Hans, que, por sua vez, foram retiradas do apartamento de Isolda Bassi-Bruch, sua segunda mulher e pianista como ele, quando esta veio a falecer.

Como se armasse um puzzle, Marisa começa a me contar uma história fascinante. Uma história de século 20. Filho do maestro Wilhelm Bruch, vejo Hans sair daqueles papéis no seu primeiro recital em Reichenbach, em 1897. No programa, colou-se um raminho de flores para saudar o pianista de seis anos. Vejo-o crescer, tocando mais e melhor. Vejo-o virar músico importante, casar-se com a jovem pianista Lene, ele cristão, ela judia. Vejo-os se apresentando em duo, que sucesso. Hans tem olhar amplo para a arte. Toca Hindemith, Alban Berg, Ernst Toch. Em 1924, funda a Gesellschaft für Neue Musik, em Mannheim, e, para esta sociedade, escreve o ensaio Por Que o Homem Moderno Não Gosta de Escutar a Música de seu Tempo. Preocupava-se com tais questões quando Lene começa a ter concertos cancelados. Amigos de ambos, idem. Ele, por fim. Vejo-o abrindo a carta do burocrata do Reich determinando que prove sua origem ariana até a quarta geração. Vejo Lene fechando as malas e se despedindo para viver no Brasil, sim, seria mais seguro. Vejo Hans ficar para trás com as filhas Gisela e Maria Luisa. O retrato da família partido ao meio, a escuridão cobrindo a Europa.

Em 1935, Hans decide que não dá mais. Dribla oficiais do führer, aciona seus melhores contatos e embarca com a filha Gisela no navio General Artigas rumo à América do Sul. Deixa Maria Luisa com parentes, numa Alemanha entregue ao ufanismo nacional-socialista. Seria só por um período. Vem atrás da sua Lene.

Consegue trazer, além de malas, alguns móveis, quadros de família, dois pianos Steinway. Chega ao Brasil querendo trabalhar. Com a violinista Hertha Kahn, sua conterrânea, forma novo duo. E saem em turnê de quatro meses pelo Nordeste do País. Cruzam a fronteira amazônica com suas partituras. Nesse momento, minha amiga Marisa abre um álbum com capa de couro e a viagem improvável ganha imagens reais. Hans tem uma Leica.

Usa a câmera já em Santos para fotografar o embarque no navio Itanhangá, em fevereiro de 1937. Pegará outros três "Itas" para dar conta do Brasilzão. Passa pelo Rio, cidade que não acha bela à primeira vista - depois reconsidera. Alcança Salvador, Bahia, em plena terça de Carnaval: "No meio de tudo, passam trupes de negros com seus instrumentos primitivos de percussão e seu canto. Despertam um élan provocativo...". Em Recife, é apresentado ao compositor Ernani Braga, simpático, bonachão, mas inoperante.

Sente o suplício de tocar de fraque num calorão daqueles: "Aproxima-se a hora de me vestir para o concerto, minha mais difícil hora...". No intervalo de uma apresentação, ensandece. Tira a roupa e deita-se nu no chão. Noutro momento, pede um ventilador no palco. De Recife a Garanhuns, viaja só de pijama no trem, "mais fresco..." - Hertha não para de rir. Dá uma de afinador no sertão antes de atacar a Sonata para Violino e Piano, de César Franck. Mas prefere desmontar o piano do navio, no trecho Belém-Manaus. E tira fotos, muitas fotos das feiras, das frutas, das mulheres, dos bichos e dos homens que se cumprimentam com pancadas nas costas, "singularidade constrangedora para mim".

Hans Bruch encerra sua sinfonia tropical para atracar em São Paulo. Conseguiu juntar-se à filha Maria Luisa, a Didi, mas Lene morreria de câncer. Casou-se novamente com uma aluna bem mais jovem, Isolda, com quem formaria outro duo na vida. Dedicou-se a ensinar música até o fim de seus dias, em 1968. Por ele passaram muitos alunos, como o pianista Gilberto Tinetti, que um belo dia o homenageou com uma Colcheia de Prata. Ao lado de nomes como Hans-Joachim Koellreutter e Damiano Cozzella, Hans Bruch fundou os Seminários Pró-Arte, um marco na vida musical brasileira.

Em arrumações solitárias, Marisa Patrício fez mais do que reconstituir o trânsito de uma família perseguida pelo nazismo. Compôs um tableau. Sylvia Asmus, diretora do Departamento do Exílio na biblioteca nacional alemã, aguarda esse material em Frankfurt para ser apreciado por especialistas. Há interesse na compra. Meu amigo Jan, marido de Marisa, filho de Gisela, neto de Hans e pai do Mathias, jamais pensou fazer disso um negócio. Que outros interessados se manifestem: como seria bom se a história de Hans Bruch pudesse ser compartilhada por mais brasileiros. Era um gringo valente para driblar o oficialato de Hitler e descer rio amazônico em "gaiola". Mas se assombrava com a possibilidade de uma manga lhe cair na cabeça. Sua vida daria um filme.

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