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Sinfonia para Deus

Smile, o álbum perdido dos Beach Boys, é lançado 45 anos após sua origem

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

A história do rock não foi feita apenas de melodias, acordes e harmonias, muito menos foi composta somente com guitarra, baixo e bateria - pelo contrário, talvez se fossem apenas pelas canções, o estilo nunca teria a sua imensa importância e relevância desde a década de 50. O rock também foi muito moldado pelas suas anedotas e causos, lendas que serviram para criar uma mitologia e dar uma narrativa para todo aquele barulho. Elvis que não morreu; Paul McCartney que, esse sim, teria morrido; Ozzy Osbourne que mastigou um morcego; Keith Richards e suas trocas de sangue; a magia negra do Led Zeppelin; Gene Simmons e a língua bovina; Eagles e seu pacto com o diabo; o flerte de Mick Jagger com David Bowie, o suposto caso amoroso de Janis Joplin com Serguei...

São justamente essas e outras tantas "notas de rodapé" que ajudaram a formatar o rock, criar heróis e vilões, sejam verdades inacreditáveis ou cascatas divertidíssimas. Um dessas histórias poderá agora ser decifrada pela primeira vez, uma fábula daquelas de novela mexicana que irá virar realidade. Quarenta e cinco anos após o início das gravações, as fitas do álbum inédito Smile dos Beach Boys vão ser finalmente lançadas no dia 31 de outubro em uma luxuosa edição, com direito a quase quatro horas de música daquele que é conhecido como o disco perdido mais famoso e mais importante do rock.

"Estou emocionado. Essas sessões vão ser divulgadas pela primeira vez, depois de tanto tempo. E estou ansioso para que os fãs ouçam as gravações", já afirmou Brian Wilson, hoje com 69 anos, mentor dos Beach Boys. Smile foi uma tentativa do jovem Wilson de escrever uma "sinfonia adolescente para Deus". Naquela época, entre 1965 e 1966, ele já era apontado como um dos maiores compositores americanos e principal rival da dupla John Lennon & Paul McCartney, principalmente depois de surpreender o mundo da música com o disco Pet Sounds - a delicada obra-prima que tem presença garantida em qualquer lista séria dos melhores discos da história do rock. Dali saíram pérolas como Wouldn''t It Be Nice, Sloop John B e God Only Knows, essa última digna de tocar no paraíso. McCartney, que se maravilhou com o disco, não se cansa de repetir que foi essa a única música que o fez chorar até hoje.

Drogas. Genial, visionário, recluso, competitivo, esquizofrênico e um bocado psicótico, Brian Wilson começou então a esboçar as linhas gerais de Smile e a experimentar de tudo - percussão feita apenas com vegetais, melodias que se transformavam a cada novo compasso, ácido com maconha, mescalina com éter, rum com tranquilizantes... O resultado foram alguns fantásticos trechos de música. Smile realmente tinha tudo para ser uma nova revolução, com músicas que falavam sobre a expansão americana (Heroes & Villains, Do You Like Worms), a busca da maturidade (Cabinessence, Wonderful, Surf''s Up) e até mesmo os elementos da natureza (Vega-tables, Fire, Love to Say Dada e Wind Chimes). O disco estava tão bem encaminhado que até um single foi lançado, o fantástico Good Vibrations.

Só que algo não ia assim tão bem com Brian. A busca incansável por melodias, o esgotamento mental dos integrantes da banda (que não entendiam suas maluquices), a pressão da gravadora por um sucesso e o abuso de drogas foram se acumulando.

Mito. Para piorar, uma bomba veio diretamente de Abbey Road - os Beatles lançaram o arrebatador Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Brian não resistiu. Reza a lenda que, depois de uma crise nervosa, ele chegou a fazer uma fogueira com as fitas de Smile. "Não gosto de lembrar o que aconteceu, eu era uma pessoa muito transtornada", disse o músico em entrevista em 2004, quando veio ao Brasil.

História ou não, o mito do Smile só foi amplificado. Brian, por sua vez, teve de esquecer da disputa pelo Olimpo do rock e começou a lutar pela própria vida. Gordo e depressivo, passou mais de 30 anos tentando reconstruir a sua vida. No começo da década passada, ele retomou a carreira (sem trocadilhos), compôs novos álbuns e chegou até a regravar em 2004 as lendárias músicas no disco Brian Wilson Presents Smile, extremamente elogiado pela crítica. Só agora, no entanto, aquelas tão famosas gravações de 1966 serão oficialmente lançadas, com supervisão oficial dos membros vivos dos Beach Boys, Al Jardine, Mike Love e, claro, Brian Wilson.

OUTROS FILHOS RENEGADOS

Let it Be (1969)

McCartney considerou o resultado uma catástrofe. A produção de Phil Spector e os arranjos, para ele, não funcionaram. De quebra, era o tempo em que a banda estava por se separar, Em 2003, lançou Naked, o Let it Be cru que sempre quis.

Here, My Dear (1978)

Após se separar da esposa Anna, em 1977, Marvin Gaye foi condenado e pagar todo o dinheiro arrecadado de seu próximo disco à ex-mulher. Ok. Intencionalmente ou não, ele foi lá e gravou um desastre comercial. Só se recuperaria com Sexual Healing, de 1982.

Everybody''s Rockin" (1983)

Neil Young resolveu fazer rockabilly com este disco. A gravadora Geffen odiou o resultado, que julgou fora dos padrões do músico. O rolo foi tanto que até o R.E.M., que iria assinar à época contrato com a Geffen, desistiu e fechou com a Warner.

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