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Síndromes

Uma pesquisa elementar sobre síndromes, descobri mais de 1.400 espécies. É síndrome pra cacete

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2019 | 02h00

Na quinta-feira, 21 de março, o presidente Bolsonaro saudou ao vivo pela internet o Dia Internacional da Síndrome de Down. Ao menos esta era ou parecia ser sua intenção. Na hora de proferir o nome da síndrome, outra entrou em seu lugar: “Drown”. Ao lado do presidente, o general Augusto Heleno prontamente o corrigiu. Como não revi o vídeo, não posso confirmar se, ao ouvir a correção – “Down” – o presidente limitou-se a olhar para baixo e prosseguir com sua fala, como se nada tivesse acontecido. 

Por duvidar que um presidente da República, com passagem pela Academia das Agulhas Negras, não saiba que a síndrome é de Down, não de Drown, perguntei-me se por acaso não existiria outra com aquele nome, a identificar pessoas ocasionalmente sujeitas à sensação de afogamento (“to drown”, em inglês, quer dizer afogar-se). 

Esclarecer tal dúvida me levou a uma pesquisa elementar sobre síndromes, ao longo da qual descobri não haver nenhuma com o nome de Drown entre as mais de 1.400 espécies consignadas nos anais da medicina. 

Convenhamos: é síndrome pra cacete. E a de Down era uma das poucas, sete ou oito, que até então eu conhecia. Algumas me eram familiares pela convivência com vítimas de seus sintomas: as síndromes do túnel do carpo, de Asperger, de Tourette e Guillain-Barré, por exemplo. As demais porque são, mesmo, razoavelmente manjadas.

A síndrome de Estocolmo talvez até dispense explicações. Mas, vamos lá: denomina a estranha aliança psicológica da vítima com seu algoz, como estratégia de sobrevivência. O termo foi inventado por um criminólogo sueco depois que quatro funcionários de um banco, reféns num assalto em Estocolmo, 45 anos atrás, se recusaram a depor contra os assaltantes, no tribunal. 

Igualmente conhecida, porém menos frequente, é a síndrome de Stendhal: perturbação psicossomática, sob a forma de taquicardia, tontura, desmaio e delírios, quando o sujeito é exposto a uma experiência estética de grande impacto sensorial. Também conhecida como hiperculturemia e síndrome de Florença, pois derivou de um faniquito que Stendhal teve ao visitar a florentina Basílica da Santa Cruz, em 1817. O que sinto ao ver imagens de Ava Gardner e Marilyn Monroe é outra coisa.

No universo onomástico das síndromes, amplamente dominado pelos nomes dos cientistas que as revelaram e estudaram, encontrei duas outras cidades ligadas a perturbações psicossomáticas: Lima e Havana. 

A síndrome de Lima é o avesso da de Estocolmo, ou seja, com o vilão desenvolvendo simpatia pela vítima. Tem brasileiro em sua origem, já que brotou numa festa na residência do embaixador do Japão no Peru invadida por militantes do Tupac Amaru, em dezembro de 1996, em que o nosso embaixador Carlos Perez não só estava presente como serviu de intermediário entre os guerrilheiros e seus cativos. 

Lembram daqueles misteriosos ataques acústicos aos funcionários das embaixadas dos EUA e do Canadá, primeiro em Havana e depois na China? Trump acusou o governo cubano de irradiar aqueles azucrinantes zumbidos, nada ficou provado, mas a pecha emplacou no léxico das síndromes, embora só com o nome da capital cubana. 

Surpreendi-me mais com a existência da síndrome de Alice no País das Maravilhas (condição neuropsicológica que desorienta as pessoas e afeta a percepção dos objetos) e da síndrome de Rapunzel (raríssima afecção intestinal resultante da ingestão de pelos, sinônimo afetado de tricofagia), do que com a síndrome de Van Gogh (piração de pessoas que se automutilam, não apenas a orelha) e a síndrome de Truman (espécie de pré-esquizofrenia que só necessitaria detalhar para quem não viu o filme O Show de Truman). 

Certas patologias do gênero acabaram agraciadas com dois nomes. A síndrome de Estocolmo também é conhecida como de Patty Hearst. A síndrome de Diógenes, reservada aos velhinhos que vivem na abjeção da demência, acumulando cacarecos e sujeira, costuma ser chamada de síndrome de Plyushkin, em homenagem ao personagem de Almas Mortas, de Gogol.

Não encontrei uma só síndrome de matriz brasileira ou inspirada em alguém ou algum evento daqui. E não será agora, com o País tão por baixo, tão Bolsanistão, que nos darão uma colher de chá. Sugestivos achaques de natureza psíquica continuamos tendo em profusão, falta-lhes apenas o reconhecimento da comunidade científica internacional. A síndrome da Pastora, por exemplo, merecia maior consideração das autoridades competentes. E o mesmo se diga em favor da síndrome do Babão do Rio Branco. 

Alucinações com chupetas fálicas e Jesus trepando em árvores frutíferas seriam os principais sintomas da primeira síndrome. A segunda englobaria todo e qualquer indivíduo diuturnamente obcecado pela ideia de que o aquecimento global foi uma invenção de marxistas. 

As desvairadas negativas de que sofremos um golpe militar em 1964, seguido de um regime ditatorial que durou 21 anos, com tantos quepes, fraques e alamares a sustentá-las, pedem um padroeiro acima de qualquer suspeita. Que nem precisaria ser um general, chanceler, empresário ou político da terra. Se ainda não existe a síndrome de George Santayana, por que não encampá-la preventivamente? Afinal foi o filósofo espanhol educado nos EUA quem ensinou que todos aqueles que ignoram o passado estão condenados a repeti-lo.

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