Basso Cannarsa/Divulgação
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Síndrome do velho Bartleby

Enrique Vila-Matas construiu sua obra sobre o silêncio, voluntário ou não, de outros escritores

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 21h56

A crise criativa de Mark Salzman descrita acima foi, de certo modo, antecipada na ficção pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas num de seus melhores romances, Bartleby e Companhia, aqui lançado pela Cosac Naify há sete anos. O narrador, como Bartleby, o escriturário criado por Herman Melville, é um sujeito que parou de escrever, igualmente um burocrata que tenta retomar um romance 25 anos depois de seu primeiro e tosco esboço.

No conto de Melville, Bartleby tira do eixo todos os que o cercam no escritório, onde passa o dia contemplando o nada e respondendo a cada solicitação com a mesma frase: "Preferia não o fazer". Embora não sejam voluntariosos como Bartleby, os escritores em crise criativa citados por Vila-Matas em seu livro são personagens da renúncia - e há exemplos históricos de dramática interrupção de obras, de Rimbaud a Salinger, passando por Musil e Kafka. Todos eles se recusaram, de algum modo, a desempenhar um papel ordinário, o de criadores donos do destino de suas criaturas. Interromperam obras ou deixaram histórias inconclusas por considerar, talvez, desonestidade intelectual inventar um epílogo.

Essa crise criativa, que rende bons trabalhos de ficção como os de Vila-Matas, é recorrente no caso da literatura contemporânea, que vive da autorreferência e de citações, juntando fragmentos de clássicos e modernos num jogo cubista. O medo de não ser nada além de uma variação sobre o mesmo tema, que persegue os literatos desde a época romântica, é ainda maior no Bartleby do autor catalão. Ele fala de um tipo parecido de escritor replicante em Breve História da Literatura Portátil, satirizando autores da primeira vanguarda do século passado como homens de poucas ideias - tão poucas que caberiam numa maleta, fácil de transportar e difícil de suportar.

Num outro livro de Vila-Matas, O Mal de Montano, ele volta aos livros interrompidos e desfila um número razoável de escritores de seu panteão literário para associar a pane sintática a uma espécie de doença cuja cura dependeria exclusivamente da memória de outro narrador, disposto a resgatar no passado textos cifrados como os do escritor suíço Robert Walser, que, internado num asilo para pacientes com distúrbios mentais, passou a escrever em letras diminutas.

O Mal de Montano é a literatura no limiar do desaparecimento - e Vila-Matas não desperdiça a metáfora da extinção ao evocar o nome de Walser (homenageado ainda uma vez em outro livro do catalão, Doutor Pasavento, que alude ao desejo do escritor suíço, de desaparecer sem deixar vestígios). Em Bartleby e Companhia, o narrador já não se importa em escrever um drama aristotélico. Fica feliz em agrupar notas de rodapé para um livro que está escrevendo sobre a "síndrome de Bartleby", ou seja, sobre o direito de dizer não ao verbo.

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