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Sincericídio

‘Eu quero que você me diga a verdade.’ Quase ninguém sobrevive à verdade

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 02h00

O neologismo do título é conhecido. Há pessoas que dizem a verdade mesmo que o mundo pereça. São camicases da palavra, homens-bomba do real, piromaníacos de si e das relações. As crianças, os alcoolizados e alguns idosos costumam apresentar o estranho compromisso com o real batizado de “sincericídio”.

Ser verdadeiro é uma virtude. Jesus garantiu que a hipocrisia era um mal e que a verdade nos libertaria (Jo 8,32). Sempre consideramos o demônio o pai da mentira. Todos os termos são negativos para aquele que mascara o que pensa: hipócrita, mentiroso, falso, dupla face, oportunista, fariseu, fingidor, adepto da felonia, Judas, perjuro, logrador, embusteiro, amigo da falcatrua, 171, tratante, Tartufo, traiçoeiro, truqueiro, postiço, trêfego, improbo, desleal, trambiqueiro, ardiloso, pérfido e muitos outros em nossa língua riquíssima. As palavras foram multiplicadas para o mesmo e universal repúdio ao mentiroso. 

Os estereótipos se multiplicam carregados de preconceitos. Os políticos seriam desonestos e sem compromisso com a verdade. Os homens seriam todos falsos na conquista amorosa. As mulheres? Não se poderia confiar nelas. Os gays seriam cínicos e dissimulados. Comerciantes venderiam mentiras sobre seus produtos. Médicos aumentariam ou diminuiriam a gravidade do caso. Mecânicos inventariam problemas inexistentes. Viciados enganariam a si próprios com inverdades sobre sua dependência. Os clichês vão sendo construídos sempre em torno dos lugares da virtude e do vício.

A verdade é clara e brilhante. É radiosa, modelo moral e meta de vida. Não se pode viver sem respirar o ar da honestidade da fala e dos gestos, assim acreditamos em nossa fase virtuosa. O primeiro pecado foi a desobediência. O segundo? A mentira. Dupla infração: os primeiros pais não acreditaram na verdade enunciada pelo Criador e ainda culparam a serpente pelo ato deliberado. Ao suporem que Deus estaria mentindo sobre o fruto proibido, Adão e Eva mostram que, antes da queda e antes de tudo começar, já se desconfiava da palavra do outro. A hipótese da mentira preexiste ao erro em si. Quando acho que todos podem mentir, não apenas demonstro que sou realista ou negativo ao extremo, igualmente evidencio a premissa do espelho: os outros são mentirosos porque refletem o meu comportamento moral. O primeiro casal ainda não tinha errado em nada, eram puros, completamente imaculados e já supunham que alguém poderia mentir. Difícil saber se a mágoa d’Ele nasceu da desobediência ou da calúnia. Como eu posso imaginar o mal e a mentira se ainda nunca vivenciei nenhum problema ético ou moral? Eis o inusitado da possibilidade da mentira: ela é anterior à própria queda. Somos mentirosos ainda na inocência. 

Voltemos ao sincericídio. Eu que escrevi minto, você que lê mente, a humanidade mentia no Éden e mente na reunião de condomínio. Todos já mentimos alguma vez, muitos já mentiram muitas vezes e alguns mentem sistematicamente. Há o tipo puro, aquele que mente sempre e o mitômano, que acredita na própria mentira. Seria o último um hipócrita? A variedade pode estar na frequência, o erro é coletivo. 

A mentira nos une e humaniza. Como ela é feia, fazemos tratamentos estéticos para trazê-la ao convívio. Dizemos que ocultamos tal coisa para a pessoa não sofrer. Mentimos para proteger e enganamos por amor. São variantes de Adão: foi a mulher que me deu. Mentimos muito, mas, claro, sempre porque desejamos evitar males maiores. Você me acha feio? Você me acha gordo? Você me ama de verdade? Você gostaria de estar sozinho e não comigo? Você já me traiu? As perguntas são delicadas. As respostas precisam ser medidas e pesadas. A palavra “sincerão” tem certa graça, o convívio com o próprio nem tanto...

Uma pessoa cozinha para mim. Dedica-se ao prato. Ela coloca carinho na obra, abre sua casa e seu coração, compartilha a refeição e o sentimento. O prato é ruim. A necessidade afetiva/social provoca o exercício complexo de dissociar o rosto da fala e, pior, afastar o que dizemos daquilo que sentimos. “Então, como estava?” Surge a mentira piedosa. Como dizer que a intenção foi das melhores e o resultado intragável? Como responder sem mentir? Qualquer relativização ou gradação provoca dor e raiva. “Você realmente tentou e eu estou feliz e emocionado, mas o resultado ainda é abaixo do bom.” Brota o ódio mortal, mesmo antecipado de elogios afetivos. A pior das situações, a mais enganosa frase do mundo: “Eu quero que você me diga a verdade”. Quase ninguém sobrevive à verdade. Não adianta adocicar a seta da crítica no mel dos elogios prévios, o sincericídio é fatal à relação.

Que solução existiria para comentar o presente pavoroso que você acaba de receber de uma pessoa com os olhos imersos em expectativas com sua reação? “Gostou?” Como responder? Como dizer “não, isso não tem nada comigo, é oposto aos meus valores práticos e estéticos, você errou, miseravelmente, demonstrou nada saber sobre mim e projetou apenas a si neste presente”. Essas considerações que você já pensou muitas vezes, não podem ser enunciadas. Machucam o esforço genuíno e sincero do presenteador. Posso pensar que o que vale é a intenção, o gesto, a vontade e não o produto que ali está a gritar que a pessoa não me conhece. Minto com o rosto, minto com a fala e minto com o abraço de agradecimento. Poderia não mentir? 

O mundo seria um lugar melhor se você seguisse o conselho da autora do Grito de Guerra da Mãe-Tigre (Amy Chua) e, recebendo um cartão de Dia das Mães feito pela filha, dissesse que ele estava ruim e que poderia ser refeito em padrões mais elevados?

Produziríamos crianças mais exigentes, menos mimadas, mais realistas ou completamente inseguras? Eu colaboraria com o desenvolvimento da literatura se recebesse o poema enviado e fizesse uma genuína análise dele? A pessoa ficaria mais feliz se eu dissesse que era uma poesia ótima ou teria uma noção mais acurada de si e do mundo se eu dissesse que o texto é ruim e que a vocação de poeta é meteoro raro?

Para alguns estudiosos das ciências humanas, vivemos em conjunto e cooperamos em larga escala porque partilhamos valores que não existem em si. Acreditamos e precisamos acreditar em grandes ficções compartilhadas se quisermos viver em civilização. 

Descobri que até os macacos mentem para conseguir mais comida no bando. Nossos primos genéticos e nossos ancestrais míticos do Paraíso mostram o universal da mentira como estratégia. Será que amamos os cães porque eles parecem sempre gostar de nós e nunca seriam falsos? Já pensou que até seu cachorro pode ser mentiroso? Bom domingo de verdade para todos nós!

 

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