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Fábio Porchat
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Sinal da cruz

Por conta do trabalho, eu ando de avião pelo menos umas quatro vezes por semana. Não tenho medo, bem pelo contrário, até gosto de uma turbulenciazinha. Dá uma graça pro negócio. Tem vezes que eu durmo antes mesmo da decolagem e, volta e meia, sou acordado depois que todos os passageiros já saíram. Quer dizer, pra mim, andar de avião tem a mesma emoção do que andar de pedalinho. Mas, pelo que eu percebo, sou uma exceção. Sempre que o piloto solta um sonoro "atenção tripulação preparar para a decolagem", muitas das pessoas fazem o sinal da cruz. Um espécie de: Alô, Deus, tô aqui, não esquece de mim não. Não descuida desse voo. Protege o avião rapidinho só até eu chegar no Rio, depois beleza, me deixa seguir a vida.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2013 | 02h09

Eu acho curioso alguém fazer o sinal da cruz e pensar que Deus vai dar uma atenção especial a ela, sabe assim? Como se Ele pensasse: vou deixar a África de lado aqui, porque o Elias me fez o sinal da cruz num voo São Paulo - Ribeirão Preto e não posso furar com ele. Será que quando um avião cai ninguém ali dentro fez o sinal da cruz? Ou Deus foi proteger um outro avião que, na mesma hora, tinha tido um número maior de sinais da cruz? Ou até mais, será que, vendo um avião em pane, prestes a cair, Deus pensa: Eu? Salvar esse avião? Imagine. Ninguém ali fez o sinal da cruz... Enfim, "pero que las hay, las hay", cada um com sua mania, até porque é melhor um cara do meu lado fazendo o sinal da cruz do que um cara com uma bomba, certo? No fundo, até que dei sorte do religioso ao meu lado não querer 70 virgens. Pelo menos pra depois da morte, quero dizer. Mas eu até acho bom esse pedido de proteção, porque no fundo eu tô ali no avião, né? Já é uma garantia a mais. De repente sou salvo na rebarba. Embora digam que se tiver uma freira no avião dá azar. Acho que ultimamente azar é sentar do lado do Gérard Depardieu ou do André Gonçalves, mas...

Fazer o sinal da cruz tranquiliza a pessoa. Ela se sente protegida. Ok, só vamos torcer pra não virar moda isso de proteção e o pessoal das outras crenças entrar na onda. Ia ser meio esquisito começar a ver umas oferendas pra Iemanjá no corredor. Um pratinho com vela, barrinha de cereal, amendoim, goiabinha e Coca Zero na fileira da asa. Uma espécie de despacho pra Ogum, o protetor dos viajantes de avião no Brasil.

Quando fui do Egito ao Marrocos, na sala de espera em frente ao portão de embarque, havia alguns muçulmanos em seus tapetinhos, ajoelhados rezando pra Meca. Vou te dizer que pela primeira vez fiquei tenso num voo. Sei lá o que que eles estavam dizendo a Alá. Vai que estavam se despedindo. Entrar no avião vendo essa cena me deu um certo nervoso. Eu sentei na minha poltrona e só pensava em como eu daria qualquer coisa prum árabe daqueles ter feito só o sinal da cruz.

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