Sinais de vida no planeta pilots

Em maio, após uma ausência de quase uma década, voltou ao disco a banda Stone Temple Pilots. Antes mesmo de conhecer o grupo, conhecemos o vocalista Scott Weiland como cantor do conjunto de Slash, o Velvet Revolver, que tocou no Morumbi em 2007. O Stone Temple Pilots surgiu no início dos anos 1990, fazendo furor com uma mistura de hard rock, pop, punk, glam e derivações. Em 1994, ganhou um Grammy e até a virada do século já tinha vendido cerca de 40 milhões de discos. Aí, em 2001, devido ao caminho de excessos de Weiland, entrou em hibernação.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Em 2008, voltou a excursionar com a formação clássica (Weiland, os irmãos Robert e Dean Deleo e Eric Kretz) e em maio lançou material novo, sob o título simples de Stone Temple Pilots. Scott continua um cantor extraordinário, a banda soa igualmente consistente e em forma, mas o disco não é fundamental. Curioso como uma coisa que nos parecia tão original numa época pode parecer tão banal em outra. Algumas letras e arranjos do Stone não soam muito diferentes dessa enxurrada de bandas-armação de punk pop, como Bowling for Soup, McFly, Paramore. Vejam se a letra de Bagman, por exemplo, não é desse nível: "There was a dream/When we said we would be free/But now is the time to be real." ("Era um sonho quando dizíamos que seríamos livres / Mas agora é a hora da realidade.")

"Nós todos nos tornamos pais, ficamos mais maduros e aprendemos como simplificar as coisas. Não há muitas bandas em nossa época com todos os membros originais e há uma química nesse grupo após tantos anos. Sabemos como escrever canções um com o outro e esse é o principal fator que nos permitiu gravar esse disco", disse Robert Deleo.

Mas tem coisa que se salva no álbum. Hickory Dichotomy é bem legal, tem uma pegada meio Helter Skelter, rock pesado vintage sem forçação. Dare if You Dare segue nessa mesma linha. Cinnamon estraga tudo: poderia perfeitamente estar no repertório de um disco do Justin Bieber. Peacoat traz um gostinho de como poderia ser esse disco lá no início dos anos 90, com mais veneno e riffs de vidro moído. A versão luxo do disco, importada, traz uma faixa-bônus que eles definem como "brasileira", Samba Nova, uma bossa grunge (acreditem). O disco novo do Pilots é bom para nos trazer notícias de Weiland, saber que ele está limpo e em plena forma, e que provavelmente pode trazer um show novo de sua banda ao Brasil. É um dos caras honestos do rock, uma cachoeira de problemas, mas um legítimo rock star.

DEAD WEATHER

SEA OF COWARDS

Sony Music

Preço: R$ 30

Jack White navega num "mar de covardes"

The Dead Weather, a nova superbanda de Jack White, estreou no ano passado com o disco Horehound (Sony Music) e já está lançando o segundo álbum, Sea of Cowards. Trata-se nada menos do que a reunião de músicos dos grupos Kills (Alison Mosshart, cantora), Queens of The Stone Age (Dean Fertita, guitarrista), The Greenhorns e Raconteurs (Jack Lawrence, no baixo), além de Jack White na bateria e guitarra. Como Horehound, este CD também foi gravado de uma só tacada no estúdio Third Man Records, de White, em Nashville, Tennessee. "Parecem ideias descartadas do primeiro disco do Led Zeppelin", disse o New York Times sobre o primeiro. Bom, o novo álbum continua na mesma linha blues-rock paranoico, só que está mais experimental, mais Kills do que White Stripes. Distorções, duelos vocais nervosos entre Alison e Jack White (como em Die by the Drop), instrumentação estranha, letras meio dadaístas (I"m Mad). Há faixas de grande poder de fogo, como The Difference Between Us, cantada por Alison. Discaço.

NATALIE MERCHANT

SELECTIONS FROM LEAVE YOUR SLEEP

Warner. Preço médio: R$35

Natalie Merchant, acalantos com licenças poéticas

Desde que Natalie Merchant deixou o 10,000 Maniacs, tem feito álbuns que demandam longos períodos de preparação. Desta vez ela demorou mais, porém os sete anos que separam Leave Your Sleep de The House Carpenter"s Daughter trazem à tona mais do que intensas influências da folk music. Nesse tempo, ela escreveu 40 canções e gravou 30, sobre versos de poetas britânicos e americanos dos séculos 19 e 20 e anônimos, além de acalantos tradicionais. Ia reuni-las em dois CDs separados, mas a gravadora optou por lançar um álbum duplo. A versão que sai no Brasil é a opcional, com 16 faixas em um só CD. Com as habituais melancolia e doçura, sua voz desliza por canções de uma beleza cativante. O trabalho teve como inspiração sua filha pequena, daí o apelo emocional de acalantos, com eventuais situações lúdicas. Tudo emoldurado por elegantes arranjos camerísticos. Entre os convidados estão Wynton Marsalis, e o grupo vocal Fairfield Four. / LAURO LISBOA GARCIA

MARIN ALSOP

SINFONIA Nº 9 - DO NOVO MUNDO DVORAK.

Preço: R$ 59

Rara batuta empunhada por uma mulher

Quem sabe faz; quem não sabe, ensina. Em 1892, a milionária nova-iorquina Jeanette Thurber deu o equivalente a US$ 300 mil ao compositor checo Antonín Dvorák para "ensinar aos norte-americanos como fazer música nacional". Ele pediu aos nativos que olhassem para a música dos negros e peles-vermelhas. Suas palavras não funcionaram. Compôs, então, uma sinfonia a título de exemplo. Apelidada Do Novo Mundo, a obra foi hit instantâneo desde a estreia em 15 de dezembro de 1893, no Carnegie Hall, em Nova York. A receita é simples. Dvorák usa ritmos pontuados e síncopes para temas belíssimos: o mais célebre é o do Largo. Pele-vermelha até a raiz, virou matriz das trilhas de centenas de filmes de faroeste. É de alto nível a interpretação de Marin Alsop, de 53 anos, uma das raras mulheres que empunham a batuta. Ex-aluna de Leonard Bernstein, rege com sangue nas veias a sua Orquestra Sinfônica de Baltimore neste CD gravado em 2007. / JOÃO MARCOS COELHO

VÁRIOS INTÉRPRETES

O BEM-AMADO

Natasha

Preço: R$ 25

Caetano, Kassin, Mautner, tudo em casa com Arraes

Presentes em Lisbela e o Prisioneiro, Guel Arraes, Caetano Veloso, Jorge Mautner e Zé Ramalho voltam a se cruzar na trilha sonora de O Bem-Amado. Caetano assina duas canções e canta Esta Terra; A Vida É Ruim tem a voz de Zélia Duncan e versão instrumental. Ramalho dramatiza (mais) Carcará e Mautner assume A Bandeira do Meu Partido. Da Orquestra Imperial como Mautner, Kassin e Berna Ceppas trazem sua malícia para a cena, e as musas Thalma de Freitas e Nina Becker (com Cecilia Spyer) cantam Jingle de Odorico cheias de graça. Tudo em casa. Só Mallu Magalhães destoa, chorona, em Nossa Canção.

VÁRIOS

SEXO MPB

EMI

Preço: R$ 23

Sensualidade e muita safadeza em várias posições

O sexo na música é inesgotável. Depois de tratar do tema de modo abrangente e sem preconceito em livro, programas de rádio e tevê, o pesquisador Rodrigo Four reúne, em dois CDs temáticos, bons exemplares de como a sensualidade e a safadeza são abundantes em todas as posições da MPB - bolero, brega, samba, rock, forró de duplo sentido. Fugindo do óbvio, a compilação traz sucessos e raridades de Genival Lacerda, Wando, Simone, Maria Alcina, Elis Regina, Sarajane, Chacrinha e gravações dos primórdios da sacanagem cantada, como Boceta de Rapé, de 1906.

THE FLAMING LIPS

DOING DARK SIDE OF THE MOON

Warner Preço: R$ 30

Uma nova viagem pelo clássico do Pink Floyd

É de se esperar que a releitura de um disco como Dark Side of The Moon, que acompanhou as primeiras viagens lisérgicas de milhares de hippies e passou 15 anos nas paradas, peque por fanatismo ou imodéstia. Mas essa versão, adaptada pelo Flaming Lips à linguagem escrachada, punk ma non troppo do rock moderno, deixa a desejar mesmo tendo sido concebida sem fascínio adolescente ou ares de quem se julga famoso o bastante para regravar os clássicos. O que falta é gás. A psicodelia habitual dos Lips, aqui sem a força de bons discos como Embryonic, dá saudades. / ROBERTO NASCIMENTO

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