Sinais de que o mundo quer saber de Nazareth

A análise da partitura, o crédito em edições internacionais, a figura de Mário de Andrade como elo entre a obra e o mercado internacional, as constantes preocupações do compositor, pianista que odiava a pecha de "pianeiro" - as evidências sugerem de todos os lados que é Ernesto Nazareth o autor de Dengoso, informação que já constava do catálogo preparado por Luiz Antonio de Almeida, base do projeto dedicado ao compositor pela cravista Rosana Lanzelotte, que disponibilizou, a partir de 2008, toda a sua produção na internet.

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h07

Mas o leitor pode se perguntar: que diferença faz uma peça de pouco mais de dois minutos no conjunto da obra de um autor? A confirmação da autoria não muda a percepção que temos da obra de Nazareth, é verdade - mas a dúvida, mais de cem anos depois, não deixa de ser representativa do modo como por tanto tempo a sua produção foi deixada em um limbo do qual só agora começa a emergir.

A produção da passagem do século 19 para o 20 - da qual Nazareth é apenas um representante - flagra o nascimento de uma música urbana que mais tarde influenciaria autores como Pixinguinha e Villa-Lobos. Uma de suas principais marcas era o modo como bagunçava as noções de erudito e popular. E ela pode ser lida no contexto de um momento de transformações também sociais e políticas.

Em O Enigma do Homem Célebre - Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth, estudo lançado pelo Instituto Moreira Salles em 2007, Cacá Machado aponta justamente nessa direção. Ao mesmo tempo em que recupera a biografia do compositor e analisa um conjunto de peças, ele se propõe a discutir de que maneira essa produção poderia ser lida no contexto da época. "O jovem pianista conseguirá penetrar nos salões da aristocracia imperial tocando os 'clássicos' e suas polcas; e, consagrado como compositor, o rei dos tangos será para a elite da 1ª República um misto de orgulho e vergonha: o sotaque sincopado da música de Nazareth encaixava-se na construção simbólica de uma cultura musical autônoma, moderna e genuinamente nacional, características necessárias para legitimação do novo regime como uma nação civilizada e independente na ordem mundial, mas ao mesmo tempo lembrava a negação disso tudo, o seu passado dependente, escravocrata", escreve. Não deixa de ser simbólico, nesse sentido, o andamento indicado em uma das edições de Dengoso: "Maxixe Moderato".

Quanto mais se estuda Nazareth, mais torna-se clara a importância da produção musical brasileira da passagem do século 19 para o 20 - que será ainda maior quando outros autores, como Francisco Mignone, Luciano Gallet e Alberto Nepomuceno, passarem por similar processo de resgate.

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