SIMPLES E COMPLEXO

Cantado "por crianças de 10 e adultos de 80", Odair contesta as divisões na MPB

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h06

Censurado, excomungado, descolado, amado e odiado. Como um bom superstar, Odair José gosta de contradições, bons causos e muitas polêmicas - assim como foi sua trajetória até agora. Renascido e celebrado numa cena alternativa da música brasileira, não tenta parecer jovem. Mantém firme a estética dita cafona dos anos 70, de boleros românticos, teclados datados e letras divertidas. É sábio, guerreiro e humilde. Entre o esquecimento e a consagração, prefere mesmo é não opinar. No máximo, agradece.

Como era a relação com os artistas da MPB nos anos 70? Eles reconheciam seu valor?

Na época, eu achava que todos os meus colegas de profissão, do segmento que fossem, de Luiz Gonzaga a Caetano, de Roberto a Chico, tinham muito respeito pelo meu trabalho. Pelo menos eu sempre vi dessa forma. Até Dorival Caymmi me fazia elogios. Nas décadas de 80 e 90, eu ouvi uma conversa de que meu trabalho era colocado pelas pessoas de um modo mais baixo. Não dei importância a isso, mas achava estranho.

Você concorda que sempre teve uma divisão de uma MPB que vende e outra que é só de prestígio?

Sempre foi assim. Realmente tem essa divisão, só não a considero muito importante. Na música, na arte, existe a benfeita e a malfeita, não importa o segmento. Ser simples é o que é mais difícil. Vou citar um exemplo meu. A canção Cadê Você tem apenas três acordes e quando eu a canto é como se ela fosse de domínio público. Cantam crianças de 10 anos a adultos de 80. Você não pode dizer que uma música dessas não é boa.

Você pensa em refrões assimiláveis quando compõe?

De princípio, não. Mas, com certeza, está no conjunto do pensamento. Há muitos anos, eu estava fazendo uma música com Antônio Marcos enquanto tomávamos uns drinques numa cidade do Nordeste. Fomos madrugada adentro fazendo essa canção. Na ocasião, falei a ele da necessidade de ter um gravador para registrar aquilo, que deveríamos ligar na portaria do hotel para ver se alguém tinha, pra gente não esquecer. Ele virou para mim muito assustado e disse: "Como assim você quer gravar o que nós fizemos?" Eu respondi: "Vai que a gente acorda amanhã e não se lembra, né?" Ele retrucou: "Ué, se a gente acordar amanhã e não lembrar é porque a música é muito ruim. Se a gente que faz não lembra, como é que o povo vai aprender?"

Você viveu a época de ouro da indústria do disco, em que se vendiam milhões de cópias. Como lida com esta nova realidade?

Eu acho esquisito. Me recordo que anos atrás fui levado para um almoço, uma reunião informal, com o gerente comercial da Som Livre e outras pessoas ligadas às gravadoras. Eles falavam com muito entusiasmo do CD, que o vinil iria virar CD. Eu fique pescando aquilo na mesa, fazendo perguntas para entender o que seria esse CD. Do pouco que entendi, pensei: "Isso não vai dar certo". Eu até fiz esse comentário na mesa e todo mundo mandou que eu calasse a boca. Parece que eu estava vendo a história da fita cassete se repetir. E aconteceu, infelizmente. Eu acho muito estranho. Você faz um baita de um sucesso num país deste tamanho e 25 mil é disco de ouro. Absurdo.

Já que estamos na Semana Santa, você tem um disco cultuadíssimo e polêmico chamado O Filho de José e Maria (1979). É uma história sobre Jesus Cristo?

É sim, mas eu procuro colocar como eu o vejo, como aprendi. A história de Cristo é muito fantasiada pela Igreja, seja ela católica ou evangélica. Na verdade, aquilo deve ter sido uma dureza, vivida por ele com vários tipos de emoções terrestres. As pessoas colocam num plano lá em cima, mas eu não vejo dessa forma. O que está ali é uma visão minha das coisas que eu li sobre Jesus Cristo, mas também me colocando dentro da própria história, eu, você, qualquer outro.

E você gostou do resultado deste disco?

Ele poderia ter sido bem melhor. A ideia era ser diferente daquilo que saiu. Eu não fui entendido na época. Quando eu propus, era para ser um álbum com 24 obras. E disseram que não ia vender nunca... A Universal não quis fazer o disco porque não era comercial. A BMG me contratou para fazer o projeto, mas colocou o disco no mercado dividido em dois. Eu passei seis meses ensaiando com uma banda de rock no Vidigal e terminei gravando com meus velhos amigos do Azimuth. Quer dizer, tiveram muitas mudanças. Um disco que era para ser de rock foi dirigido e editado por um senhor da bossa nova, que era o Durval Ferreira. Existiram umas incoerências na época da gravação.

É verdade que você foi excomungado pela Igreja?

Dizem que foi um bispo de Campo Grande. Você só pode ser excomungado se tiver sido batizado... Quando o João Gordo tinha um programa na MTV, ele me anunciou e, de princípio, eu não entendi aquela empolgação. Ele disse assim: "Eu vou chamar um cara aqui que conseguiu uma coisa que eu nunca consegui. Ele foi excomungado pela Igreja!" Depois ele me perguntou: "Você se sentiu diferente depois de ser excomungado?" E eu: De jeito nenhum."

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