Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Simone Spoladore concorre ao prêmio Shell e será homenageada em mostra

'Aprendi que a ferramenta mais importante do ator é a escuta. Ouço muito o diretor e os atores com quem contraceno', diz a atriz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2013 | 02h09

Ela admite que aprendeu muito com José Celso Martinez Corrêa, com quem fez uma oficina de interpretação. "Aprendi que a ferramenta mais importante do ator é a escuta. Ouço muito o diretor e os atores com quem contraceno. Me deixo ser guiada e me entrego a ponto de ter uma independência em cena. Acho que o trabalho é esse - ouvir muito e deixar o conteúdo agir. Quando você entra em cena, esquece tudo e tenta criar um momento de vida com todo mundo que está ali. É um trabalho ativo e passivo ao mesmo tempo. Você se deixa fazer, como diria Camila Amado, outra mestra querida."

Quem fala é Simone Spoladore, que, no próximo fim de semana, recebe a homenagem da 16.ª Mostra de Tiradentes. Todo ano, o evento que virou a maior vitrine do cinema de invenção no País homenageia atores e autores por sua contribuição ao cinema brasileiro. Embora jovem, Simone, aos 33 anos - nasceu em 1979 -, já tem uma obra. E merece a homenagem. Ela conta que nasceu em Curitiba. "Meus pais eram bancários e estão aposentados. Tenho duas irmãs, a Janaína é bióloga e a Bruna, bailarina. Meu pai, Otávio, sempre amou a literatura e o cinema. Minha mãe, Rúbia, é muito curiosa e adora História. Os dois sempre nos incentivaram. Tivemos uma farta biblioteca e víamos muito filmes."

A homenagem, Simone diz, não é só para ela. "Se estende à maioria dos filmes e diretores com quem trabalhei. São processos de trabalho que buscam se relacionar com a criatividade da linguagem do cinema. Todos envolvem riscos, alguns são mais bem-sucedidos que outros e eu acho importante ressaltar que esse cinema também é feito no Brasil. Embora não tenham grande bilheteria, são filmes que contribuem para a memória brasileira. São histórias com universos muito particulares que revelam outras formas de olhar o Brasil. A São Paulo de Lourenço Mutarelli, as salinas filtradas pela poesia de Eduardo Nunes, Brecht pela Helena Ignez, o Rio pelo olhar de Jorge Durán e o romantismo de Marcelo Lafite. Estou falando de Natimorto, Sudoeste, Luz nas Trevas, Não Se Pode Viver Sem Amor e Elvis e Madona. Há uma diversidade nesse percurso, que revela nossa multiplicidade cultural."

E tudo começou com Luiz Fernando Carvalho, em Lavoura Arcaica, de 2001. "Mesmo já tendo nove anos de dança clássica, comecei tudo de novo. Fiquei seis meses em São Paulo aprendendo dança do ventre. Buscava uma nova maneira de me mover. Usava referências do flamenco, da dança cigana e até, de maneira intuitiva, do candomblé. Lia muito, víamos juntos os filmes de (Andrei) Tarkovski e (Ingmar) Bergman. E eu dançava o tempo todo. Foi um trabalho de imersão na obra de Raduan (Nassar). Todo esse processo foi uma explosão e o meu encontro com o cinema. Paradoxalmente, o filme era muito falado, mas minha personagem era calada. Foi como se estivesse ingressando no cinema pela via muda."

A preferência indiscutível de Simone Spoladore é pelo cinema autoral. "A primeira vez que vi Limite foi à meia-noite num cinema de rua de Curitiba, acho que o Luz. Dormi muito mais do que gostaria de admitir. Anos mais tarde, revi o filme no Cine Odeon, no Rio, e soube que havia perdido bastante. Mas, do que vi, as imagens me marcaram. É um filme que faz parte do meu imaginário. Me ajudou a construir um mundo e a me ver, a descobrir e amar a cultura brasileira. E uma vez que vi Mário Peixoto, Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Bandido da Luz Vermelha, jamais os esqueci. São filmes de autores que carrego comigo."

Simone é uma atriz de todas as mídias e agora mesmo está indicada para concorrer ao Shell por seu papel no teatro como a Maggie de Depois da Queda, de Arthur Miller. Fazer cinema é diferente de TV. "No cinema, mergulhamos no universo do diretor e o ajudamos a construir o mundo que ele está imaginando. É um trabalho que se faz no dia a dia da filmagem, de forma artesanal, trazendo à tona cada pedacinho da história até revelá-la completamente. Na TV, o processo é mais industrial, tudo é mais rápido, mas a possibilidade de estar em cena diariamente também estimula o exercício constante da improvisação."

Cada personagem carrega sempre o próprio desafio. "A Clarice de Sudoeste nasce, cresce, envelhece e morre num único dia. A dificuldade era fazer a transição de uma personagem jovem à outra velha, mesmo sabendo que não há tanta diferença de postura entre uma mulher de 18 e outra de 40. Como se constrói uma coisa invisível de maneira visível? Em Natimorto, minha personagem não tem nome. É a Voz. Ela canta sem ser ouvida, exceto pelo Agente. (Lourenço) Mutarelli fez cartuns e criou as personagens do livro todas com aspectos surreais. Neste caso, o desafio era transformar o que era literatura numa voz de cinema. Na interpretação, atuam sempre vários fatores, o importante é não se fixar numa só ideia sobre a personagem. Você precisa se deixar surpreender pelo que está acontecendo no momento."

Representar, para Simone, é estar em contato consigo mesma e descobrir novas maneiras de ver e sentir o mundo e as pessoas. O que ela diria a alguém que esteja começando e se mire na sua trajetória vitoriosa? "O caminho é fugir do lugar-comum e as ferramentas para isso são os livros, filmes, professores, as conversas com amigos e pessoas que têm mais experiência que a gente. É preciso se dedicar ao que você faz com paixão, praticar a compaixão e ter prazer em aprender." Como Simone reflete, os momentos de tapete vermelho, como a homenagem em Tiradentes, são fugazes. "O dia a dia é de muito trabalho." A Mostra de Tiradentes vai exibir três filmes da atriz - Sudoeste e também os inéditos A Memória Que Me Contam, de Lúcia Murat, e Nove Crônicas para Um Coração aos Berros, de Gustavo Galvão.

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