Simone Guimarães celebra Milton Nascimento em Brasília

"A gente tinha uma amizade que não precisava disso." É assim, com humildade, que a cantora e compositora Simone Guimarães se refere ao convite de Milton Nascimento para gravar o disco "Pietá", que contou também com a participação da então estreante Maria Rita e da cantora Marina Machado, numa emocionante homenagem às mulheres que influenciaram Bituca, apelido que Milton tem desde criança. No sábado, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, as vozes de Simone e Bituca voltam a se cruzar no show que celebra os 50 anos de carreira do cantor e compositor mineiro, que conquistou o mundo a partir da sua pequena Três Pontas.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

15 de junho de 2012 | 07h50

Na turnê, cuja estreia foi em Belo Horizonte e ainda passará por São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Rio de Janeiro e Três Pontas, a carreira de Bituca celebra também a amizade de muitas pessoas que o acompanharam nessa travessia. Por isso, em cada cidade, há um convidado especial. O parceiro Lô Borges participa de todos os shows, pena que não há palco suficientemente grande para comportar a participação de todos os músicos que fizeram parte de sua caminhada.

É salutar a humildade de Simone, o que a deixa ainda mais próxima de Bituca. E basta ouvir apenas duas músicas, "Festa da Piracema" (de Simone e Virgínia Amaral, do disco "Piracema", de 1996) e "Relento" (dela e de Cristina Saraiva, do disco "Aguapé", de 1998), facilmente encontradas no YouTube, para entender que não foi um simples "QI" que a deixou cantar ao lado de Bituca, que considera a voz da moça "selvagem". Mas o seu carinho com as raízes da música brasileira e a poesia de suas letras, que carregam no coração de adulto a sensibilidade de uma criança.

Ela conheceu Bituca ainda muito pequena, em sua cidade natal, Santa Rosa de Viterbo, em São Paulo. Após passar por São Paulo e Rio de Janeiro, hoje ela mora em Brasília, onde toca vários trabalhos, entre eles o de criar um projeto de música no teatro Plínio Marcos, no Ministério Público Federal, com o músico e procurador Antônio Carlos Bigonha, cuja parceria, por exemplo, rendeu a música "Confissão", gravada por Nana Caymmi.

Nascida em uma família muito musical, uma vez que o avó era o maestro Antônio Guimarães, que lançou as bases da fundação da filarmônica de Viterbo ao criar uma banda, aos cinco anos entrou numa loja de instrumentos musicais e quis porque quis um cavaquinho e um piano. "E minha mãe me deu. Ficava brincando com eles. Com oito anos eu já fazia espetáculo na escola, número solo para 500 pessoas. Já tinha um lance de compor", explica Simone, em entrevista por telefone na semana passada, quando ela esteve em São Paulo para duas apresentações com o violonista e compositor Chico Saraiva.

Quando Milton ia para Ribeirão Preto se acomodava na casa do político Chico Alencar, nascido no Rio, mas com residência em Viterbo. E muito pequena ela pedia a todo custo que Bituca tocasse para ela. E como ele adora criança, tocava até em banco de praça de Viterbo para o deleite de Simone, que recebia os discos em vinil lançados pelo cantor já autografados. Ao ouvir os discos de Simone, o cantor deve ter tido uma grata surpresa e a apadrinhou, como faz com diversas pessoas com quem conviveu. "Milton é a prova cabal que não existe limite para a arte. Um homem que lutou com tanta dificuldade no começo da vida e hoje é a quinta maior voz do Brasil", diz Simone.

Onomatopeia

Após oito discos, Simone pensa agora em gravar um disco de interprete, com talvez duas músicas autorais. "Eu aposto muito na música brasileira. Principalmente num momento que precisa reafirmar a cultura porque os valores estão perdidos. Se a geração atual tivesse sido educada... Eu valorizo a trajetória da música, sou bem conservadora e procuro seguir tradição da música brasileira porque meu coração me pede isso. Hoje em dia é só clichê, uma música onomatopeica que pegou o Brasil. Falo isso porque os artistas brasileiros têm dificuldade, os cancioneiros, que representam os trovadores do tempo do Império, que têm importância no raciocínio abstrato da população, está coibida pela avalanche tecnopop que massifica. É o corporativismo, o capitalismo selvagem."

Segundo ela, houve época em que faltava emprego para engenheiro. Agora, são os músicos que sofrem. "Falta valorização profissional no Brasil. Vivemos politicamente um momento negativo, com toda essa corrupção, o que atrapalha o progresso da cultura em geral. Mas tô animada com o governo da Dilma, em parceria com essas mulheres", diz ela, que também apoia a ministra da Cultura, Anna Buarque de Hollanda.

Milton Nascimento - 50 Anos de Carreira

Centro de Convenções Ulysses Guimarães

SDC Eixo Monumental

Lote 05.

Sábado, 21h.

Ingresso 4003-2330

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