Símbolos

A moeda desvalorizou-se tanto na Alemanha pré-nazista que, se dizia, era preciso um carrinho de mão cheio de dinheiro para comprar um pão. A imagem ficou e hoje, quando se quer dar uma ideia da economia alemã na época, evoca-se o carrinho de mão como uma espécie de símbolo do caos. Daria para imaginar como era o trânsito nas ruas, com os constantes engarrafamentos de carrinhos de mão empurrados por fraus impacientes indo às compras. E voltando para casa com os carrinhos vazios, pois mesmo um carrinho abarrotado de notas não comprava muita coisa.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2016 | 03h00

No Brasil acontece coisa (mais ou menos) parecida. Há dias ficamos sabendo que faltam tornozeleiras eletrônicas no País. Esgotou-se o estoque do dispositivo, se é que cabe o termo, que a Polícia Federal usa para rastrear os indiciados e os suspeitos e evitar que eles se mandem do Brasil ou simplesmente desapareçam das telas. Não sei se as tornozeleiras são fabricadas aqui ou se são importadas, mas tem gente enriquecendo com elas como os fabricantes de carrinhos de mão na Alemanha arruinada. Com a diferença que lá os carrinhos simbolizavam uma crise econômica e aqui a falta de tornozeleiras simboliza uma crise moral. 

Há mais investigados pela Polícia Federal em liberdade condicional do que tornozeleiras para localizá-los. Ter tornozeleira enquanto outros estão na fila de espera pode até ser um sinal de status. Quem se queixar de não ter a sua pode muito bem ouvir como resposta:

– Desculpe, estamos em falta. Mas assim que vagar uma o senhor será notificado.

E ouvi dizer que em Brasília muita gente já incorporou a tornozeleira aos seus hábitos sociais.

– Precisamos marcar um almoço um dia desses!

– Claro. Minha tornozeleira ligará para a sua.

Não sei se a falta de tornozeleiras já foi sanada. De qualquer maneira, nenhum outro país do mundo terá tido uma experiência igual. Mais um título mundial!

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