Sim, senhor presidente

Ex-amante de Kennedy fala sobre livro em que narra relação na Casa Branca

LUCIA GUIMARÃES , NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h14

Na noite de 27 de outubro de 1962, o clímax da crise dos mísseis de Cuba, o episódio que mais aproximou o mundo de uma guerra nuclear, uma ex-estagiária da Casa Branca dormia "como um bebê", na cama de John Kennedy. O presidente americano, por sua vez, em companhia do irmão Robert, seu Ministro da Justiça, se reunia com o Comitê Executivo de Segurança Nacional num andar abaixo da residência e debatia sua oferta final ao líder comunista soviético Nikita Kruschev, depois de uma semana em que a aniquilação mútua manteve centenas de milhões em suspense. No meio das tensas idas e vindas entre a sala de estar privada e a reunião, Kennedy desabafou com a ex-estagiária e amante, Mimi Beardsley: "Prefiro meus filhos comunistas do que mortos".

Incidentes como este, que desafiam a credulidade, são contados pela hoje senhora Mimi Alford em Era Uma Vez Um Segredo (Objetiva, 224 págs., R$ 32,90, tradução de Cristina Paixão Lopes), uma narrativa de sua ligação sexual com um presidente que faz Bill Clinton parecer um coroinha.

Aos 19 anos, a jovem universitária Marion, a Mimi, desembarcou da ponte aérea Nova York/ Washington entusiasmada com a chance de fazer um estágio na equipe do lendário assessor de imprensa de Kennedy, Pierre Salinger. Trazia na bagagem sexual apenas a memória de um beijo trocado com um colega na high school, o equivalente ao segundo grau nos Estados Unidos. Ela teve uma criação idílica numa família que vivia num subúrbio afluente de Nova Jersey. Chamou a atenção de Letitia Baldridge, a secretária social de Jacqueline Kennedy, com um artigo no jornal do Miss Porter's, o mesmo exclusivo colégio interno de meninas que a primeira-dama tinha frequentado. Mimi pediu uma entrevista com Jackie mas conseguiu um estágio de verão.

No quarto dia do estágio, não desconfiou do convite que recebeu do assessor de Kennedy Dave Powers para ir nadar na piscina da Casa Branca na hora do almoço. Estava com duas outras colegas que, ela soube mais tarde, já eram iniciadas na rotina íntima de Kennedy. Em poucos minutos foi surpreendida como a aparição do presidente: "Posso me juntar a vocês?", perguntou ele, antes de mergulhar. No mesmo dia, ao fim do expediente, Mimi foi levada por Dave Powers para a ala residencial da Casa Branca, encharcada de daiquiris e convidada para "um tour" dos aposentos. Perdeu a virgindade para John Kennedy numa cama próxima ao quarto da primeira-dama, que estava viajando. "Sim, JFK abusou de seu poder, carisma e charme", diz ao Estado Mimi Alford, perto de completar 70 anos e casada pela segunda vez. "Eu fui cúmplice de tudo. Muitas mulheres da minha idade reagiram ao livro dizendo que teriam feito a mesma coisa no meu lugar."

Em nenhum momento, no livro, Alford se apresenta como vítima. Sua ligação sexual com Kennedy durou até aquele fatídico dia 22 de novembro de 1963, em que tinha sido convidada para ir a Dallas. Cancelou a partida na última hora, quando Jackie Kennedy decidiu se juntar à comitiva para acompanhar o marido no cortejo do conversível onde ele foi assassinado por Lee Harvey Oswald. Durante aquele ano e meio, Alford conheceu seu futuro marido Tony Fahnestock, ficou noiva e continuava a ser apanhada por um motorista, na pequena faculdade que frequentava em Massachusetts para as escapadas rumo à Casa Branca ou para ficar escondida num quarto de hotel numa viagem do presidente pelo país.

Mesmo aos 20 anos, ela não tinha ilusão de o que fazia era mais do que isso - sexo com o presidente. Tendo mentido para o noivo, Alford não resistiu à emoção da cobertura pela TV sobre o assassinato de Kennedy e confessou tudo na mesma noite de 22 de novembro. Tony Fahnestock decidiu ir adiante com o casamento desde que sua noiva nunca revelasse o segredo a ninguém. Ficaram casados 20 anos, tiveram duas filhas, mas Alford está convencida de que a sorte do casamento foi selada na noite da revelação.

Revelação. A decisão de escrever as memórias, depois de guardar o segredo durante quatro décadas, veio quando seu primeiro nome foi revelado na biografia JFK: An Unfinished Life, de Robert Dallek, em 2003. Uma repórter nova-iorquina logo apareceu no escritório onde trabalhava a autora, já divorciada. Ela passou a ser perseguida pela imprensa. Fez terapia com Evan Imber-Black, uma pioneira no estudo do peso de segredos na vida de família.

Era uma Vez Um Segredo tem momentos de sordidez que, a autora me explica, chegou a retirar várias vezes do manuscrito. O mais célebre deles se passa na piscina presidencial, quando Kennedy instruiu sua amante estagiária a fazer um ato sexual para relaxar a tensão de seu assessor Dave Powers. Ela obedeceu, ele assistiu. Mais tarde, Kennedy tentou repetir a cena, em benefício do irmão caçula, Ted. Mas a estagiária se recusou.

A história contada em Era Uma Vez Um Segredo é mais do que um exemplo de misoginia e abuso de um dos dois homens mais poderosos do planeta há 50 anos. É reminiscente de um mundo em que a vida pessoal de homens públicos era protegida com cumplicidade reverente e não apenas respeito à vida privada. Do silêncio cúmplice para o vale tudo do escândalo do impeachment de Bill Clinton, muita coisa mudou. Monica Lewinski e Mimi Alford têm mais em comum, além do fato de terem sido estagiárias e entusiasmados brinquedos sexuais de presidentes de meia idade. Ambas foram tratadas com escárnio. Mas só Alford assumiu o controle da própria narrativa. Mônica Lewinsky, com sua privacidade invadida por um promotor e a mídia, igualmente inebriados de poder, não teve a mesma chance.

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