'Sim, eu fui enganado'

Em entrevista exclusiva, Herchcovitch fala pela primeira vez sobre o frustrado envolvimento com o I’M, anuncia a nova negociação da sua marca para a In Brands e o projeto de, em breve, abrir em Tóquio sua segunda loja

Lilian Pacce,

16 de junho de 2008 | 20h28

No dia 2 de abril, Alexandre Herchcovitch fez um voto de silêncio. Diante da conturbada situação de suas marcas junto ao I’M, braço de moda do grupo HLDC, decidiu não dar nenhuma declaração à imprensa. Alexandre quebra o silêncio pela primeira vez nesta entrevista exclusiva ao Estado, concedida por e-mail com supervisão jurídica, para evitar (mais) problemas com o I’M. Veja também:Para sempre, YSLMais anos 70Perfume de JapãoExpresso do OrienteDelicado ponto de encontroBlog da SPFW Alexandre já havia trabalhado como estilista da marca Zoomp entre 1998 e 2001. Depois, passou cinco anos à frente da direção criativa da Cori, quando foi convidado novamente a voltar para a Zoomp, que acabara de ser comprada pelo HLDC. Vale lembrar que a Zoomp desfilaria nesta edição do SPFW, mas acabou cancelando seu desfile às vésperas do evento. Alexandre assumiu não só a direção criativa da marca, como também a do grupo, que incluía a Zapping e teria ainda em seu portfólio as próprias marcas do estilista, assim como a de Fause Haten, Cumplice e Clube Chocolate. Um desafio e tanto, cercado por compromissos de investimento e expansão da marca. Ele não revela, mas circulou pelo mercado que o valor negociado teria sido de R$ 12 milhões. Na última edição da SPFW, em janeiro, o HLDC anunciou com estardalhaço a criação do I’M e as aquisições acima – embora várias ainda não tivessem recebido a assinatura contratual nem o pagamento. Logo a Cúmplice veio a público anunciar que não havia negociação alguma. Em seguida, o caldo entornou com o próprio Alexandre, que havia criado a coleção de inverno para suas marcas e a Zoomp. Foi aí que ele se calou. A seguir os principais trechos da entrevista. Na SPFW de janeiro, o I’M anunciou a compra da Herchcovitch Jeans e Herchcovitch; Alexandre, masculino e feminino. Na época, você declarou seu entusiasmo com as negociações. O que foi acertado e o que foi prometido? De fato, fiquei seduzido pela proposta de continuar sendo diretor de criação das marcas Herchcovitch Jeans, Herchcovitch; Alexandre e Zoomp e também diretor criativo do grupo I’M, ajudando a compor o portfólio. Além desses cargos e uma boa remuneração, as marcas em negociação sofreriam uma injeção de recursos visando a um crescimento grande. Porém, o que mais me deixou seduzido foi a idéia de gestão que parecia bastante eficiente. Qual foi o valor da negociação? Era a compra de 100% das duas marcas, mas a receita dos licenciamentos e consultorias não entrou na negociação. Quanto recebeu? O que não foi cumprido? Não cheguei a receber nada pela compra das marcas. Os papéis estavam prontos para serem assinados. De uma hora para outra, a HLDC parou de falar a respeito. Achei muito estranho, pois haviam feito um anúncio monstruoso sobre a compra das marcas. Mas na hora H, parei de ter notícias sobre a assinatura. Tentaram modificar o que havia sido combinado sobre a forma de pagamento e até os valores e as garantias contratuais. Foi a primeira vez que eu tive a sensação de que alguma coisa estava erradíssima e que não existia o dinheiro. Parte da gestão já havia sido transferida para o grupo I’M: meus funcionários foram admitidos pelo grupo e minha fábrica, que antes empregava mais de 60 pessoas, estava se esvaziando aos poucos. Eu comecei então a reassumir a gestão. O que aconteceu entre o desfile de janeiro e hoje? Desfilei em Nova York, onde o budget para o desfile foi maior do que das outras vezes e pude contratar melhores profissionais e modelos. Mas parte desses profissionais ainda não foi paga. Terminada a temporada de desfiles (SP e NY), estava na hora de lançar as coleções nas lojas próprias, mas o grupo não tinha crédito com a maioria dos meus fornecedores, que não queriam vender nem um alfinete para o HLDC. Resolvi, então, assumir todos os gastos de produção para que as coleções saíssem do papel para a realidade das lojas. Quando percebi tudo isso, já era tarde demais, já estávamos muito atrasados com a entrega. Embora as vendas de showroom tivessem duplicado, seria impossível entregar tudo o que foi vendido. Isso significa que sua coleção de inverno existiu apenas na passarela? Não. Num certo momento, minha mãe teve a brilhante idéia de iniciar a produção mesmo sem autorização do grupo. Ela me perguntou se poderia continuar "à maneira dela" e autorizei. Se ela não tivesse tido essa atitude, teríamos pulado essa estação em termos comerciais. Retomamos as compras e os fornecedores liberaram a venda, pois o faturamento seria para minha empresa e não mais para o grupo. Você perdeu clientes? Ainda não consigo avaliar se houve perda, mas o atraso na produção e entrega com certeza prejudicou meus clientes.  Quanto você calcula que foi seu prejuízo? Ainda estamos calculando, mas foi grande. Parte dos lucros cessou, pois não conseguimos colocar as coleções nas lojas em tempo hábil nem entregar aos clientes de atacado. Estendemos tanto a liquidação que, dada hora, não tínhamos nada em estoque. O que me preocupa nesse contexto é preservar minha credibilidade, minha imagem e as minhas marcas. Como ficam as exportações e sua loja no Japão? Acho que atenderemos aos nossos compromissos. Nossa entrega de exportação é em julho/agosto e conseguiremos produzir quase 100% dos pedidos. As quatro lojas no Brasil e uma em Tóquio continuam como estavam. Pretendemos abrir a segunda loja em Tóquio em 2010. Qual é a sensação de ver seu nome e sua empresa ameaçados depois de se estabelecer como um dos principais estilistas brasileiros? Sempre fui cuidadoso com a minha imagem e das minhas marcas. Fiquei preocupado com o que poderia acontecer, mas como foi tudo muito rápido, saí a tempo de não ter meu nome comprometido. Um dia a mais e eu não conseguiria nem lançar a nova coleção de verão. Não sinto que meu nome e minhas empresas estejam ameaçados. A produção criativa não sofreu qualquer arranhão. Me sinto muito mais forte agora, com mais uma lição em meu currículo. Você e seus funcionários foram pagos? Após romper em 2 de abril de 2008, reassumi os funcionários que haviam sido admitidos pelo grupo, além de alguns que resolveram se desligar da marca Zoomp. Alguns foram pagos, outros não. Ainda há pendências de pagamento de serviços prestados por mim à Zoomp. Qual é a situação da Zoomp hoje? Muita gente está saindo de lá. Na verdade, não perdi mais tempo com isso. Estou olhando para frente. Qual é a posição de Renato Kherlakian, fundador da Zoomp, dentro da marca e do grupo? Até onde eu participei, eles estavam em processo de criação da marca RK. Em que condições você chega a esta SPFW? Mais maduro e experiente, com 95% do quadro de funcionários completo, mostruários completos, uma coleção madura e essencialmente Herchcovitch. Você perdeu patrocinadores? Não, nem apoiadores nem fornecedores. Ao contrário, recebi ajuda de toda parte, fortalecendo minha relação com eles. Após o rompimento, visitei um por um, contei o que aconteceu. Disse que o pesadelo havia acabado e muitos falaram: "Que bom que você saiu dessa a tempo!" Mesmo diante das dificuldades, por que você manteve os desfiles da coleção masculina e feminina separados nesta SPFW? Já passei por dificuldades. Esta é apenas mais uma. Não há motivo para fazer menos do que antes. Tudo se normalizou em tempo recorde. Uma coleção que levo oito meses para fazer foi colocada de pé em menos de três meses. Você foi enganado? Queriam comprar minhas marcas sem ter dinheiro. Fui enganado. Você está vendendo sua marca para a In Brands? Estamos conversando e acho importante deixar claro que farei o que for necessário e possível para o desenvolvimento do meu negócio e de minhas marcas. O que muda da negociação da I’M para a da In Brands? Nada. Qualquer que seja o teor da negociação, os objetivos são os mesmos: crescimento do negócio e marcas, melhores serviços para meu cliente, mais desenvolvimento pessoal e profissional, é o que marca este momento da minha vida.

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