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Sim, eu aceito

É claro que eu quero, portuga. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 02h00

Nunca fui muito fã de contos de fadas, nem de histórias de princesas. Meus desenhos favoritos - tão pouco previsíveis - eram Mogli e Tintin. Aos 15, comecei a implicar com as comédias românticas, dizendo que eram todas histórias impossíveis, que nunca aconteceriam na minha vida. Sempre acreditei no amor, mas não nas histórias de cinema. Filha de virginiana germânica, aprendi a acreditar no pé no chão e no afeto. Mas parece que a vida quis me reservar algo diferente.

São Paulo, junho de 2013: foi quando ele me viu pela primeira vez. Viajou 8 mil quilômetros para estar naquele casamento, mas eu nem o vi. Seis meses depois, fomos apresentados em Lisboa. Eu disse “muito prazer” e ele respondeu “tu não te lembras de mim, mas eu não esqueci de ti”. Frio na barriga. Conversamos a noite toda. Não contava com a ideia de me interessar por um homem separado, pai de uma filha de 3 anos. Os olhos dele brilhavam ao falar da menina e os meus brilhavam ao olhar para os dele. Mas soaram as 12 badaladas e eu tive que ir embora. Nunca gostei da Cinderela. Segui para Coimbra com um nó na garganta, sabendo que havia deixado pontas soltas naquela história. Quando ele decidiu ir atrás de mim, eu já estava a caminho de Paris. Algumas horas depois, ele bateu na porta do meu quarto de hotel no Boulevard du Montparnasse, como nas melhores histórias de cinema. Nos despedimos com duas garrafas de vinho na cabeça e alguma angústia. Ele voltou para Portugal, eu voltei para o Brasil.

Achei que o romance acabava ali. Já era uma boa história para contar. Mas pouco tempo depois ele apareceu em São Paulo. Tive a esperança de conseguir parar o tempo naqueles dias. Ele embarcou de volta e eu tentei engolir o choro. Não consegui nem parar o tempo, nem engolir o choro. Tempos depois, decidi estudar em Roma. Arranjei uma escala em Lisboa. Desembarquei, abracei-o e disse que não queria me despedir dele. Ele disse que eu não precisaria me despedir e embarcou para Roma comigo. Dias depois, ele teve que ir à França e eu à República Checa. Realmente, aquela não era uma história fácil. Depois disso, houve mais do que saudade. Houve medo. Tentamos desistir de tudo, mas logo percebemos que já não havia volta.

Nos encontramos, então, no meio do oceano. Ilha de São Miguel dos Açores, Lagoa das Sete Cidades. A partir dali, eu decidi que não podia mais fugir. Meses depois, desembarquei em Lisboa com duas malas grandes e bastante medo. Começamos a namorar em Milão. Me apaixonei pela filha dele e ela por mim. Tempos depois tive que voltar para o Brasil. A vida e o trabalho não perdoam. Nos despedimos com lágrimas em Madri, sem saber o que esperar. Ele foi me ver em São Paulo de novo. Foi embora e eu fiz as malas outra vez. Decidimos viver juntos. Brigamos na Ilha da Madeira. Resolvemos. Brigamos em Londres. Resolvemos. Percebemos que nem as diferenças nem as distâncias eram mais fortes do que a vontade de estarmos juntos.

Agora, depois de mais de 3 anos no meio desse furacão geográfico, dei a ele de presente uma máquina de fazer spaghetti. Talvez eu não seja muito boa com presentes. Mas ele tirou do bolso uma caixinha preta de veludo. Abriu-a, reluzente, e disse que se percorremos tantas distâncias e se fomos tão pacientes e tão resistentes, tinha certeza de que era a coisa certa a fazer. 

Sim, é claro que eu quero, portuga. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nas chegadas e nas partidas, no Hemisfério Sul e no Hemisfério Norte. Impossível seria não querer. Impossível seria não me apaixonar por você, nem pela nossa história. Que venham muitos anos, muitas malas pesadas e muitos cartões de embarque. Obrigada por nunca termos desistido.

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