Sim à Olimpíada

Jogos olímpicos, por que não? Afirmar que o Brasil tem outras prioridades, por isso não deveria sediar uma olimpíada, é como dizer que, por não resolvermos os problemas do ensino básico, não deveríamos investir em universidades, centros de pesquisa e programas de doutorado. Investe-se em universidade, para melhorar o ensino básico.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2016 | 02h00

Sim à Olimpíada. Não à corrupção. Investigações e prestações de contas depois. Prisão à improbidade. Mas nos deixem na rota do melhor do esporte mundial. Que venham turistas, atletas, recordistas, autoridades, imprensa. Que o mundo olhe para essa cidade linda de morrer, nosso Rio de Janeiro. Não ao terrorismo!

O argumento é: não temos hospitais, mas teremos Olimpíada. Teríamos que gastar dinheiro em algo que fosse mais útil à população. Espere. A Olimpíada em si já é um tremendo investimento. Traz ao Brasil um equipamento esportivo de alto nível. Desenvolve atletas. Traz divisas, cultura, informação e turistas. Aumenta a autoestima.

Vai dar errado? Vai dar certo, com problemas condicionados à nossa identidade: atrasos, tinta fresca, instalações imperfeitas. Sem contar o roubo e a corrupção, que não é exclusividade da Olimpíada, está nos metrôs, trens, aeroportos, estradas, prédios públicos, gabinetes.

E, infelizmente, teremos vítimas de furto, taxistas espertalhões, desinformação, hinos trocados, gafes diplomáticas e atrasos, que, aliás, são a nossa marca.

Estes jogos não são de Lula, Dilma, Temer, Eduardo Paes. São do COI e IPC. Mas, principalmente, da Humanidade. Pertencem aos cinco continentes. Moldam civilizações, homenageiam o pensamento grego, a filosofia, a democracia, explicam as cidades, os povos, o Estado Nação (estandartes, bandeiras, hinos).

Foram criados para evitar guerras. Trocaram-se as batalhas sangrentas por atletismo, lanças por dardos. Foram criados em nome da paz. Sua chama passava pelas cidades, como um aviso, um pedido de trégua. Chama dos deuses. Chama acesa pelo homem tecnológico.

O golfista profissional não veio? Problema dele. Prefere torneios profissionais, que pagam fortunas, a representar seu país. Não é um patriota, mas um acumulador de troféus e riqueza pessoal. O dopado foi pego? Dançou. Da próxima, pratique esporte com o corpo limpo.

A zika assustou? É inverno, já provamos, a zika é o menor dos problemas. Tem superbactéria na baía? Tem superbactéria nos hospitais, especialmente nas UTIs, americanos. Então, evitemos os hospitais?

Deveríamos nos juntar nessa hora. Esta é a primeira do continente sul-americano. E sabe-se lá quando teremos outra. Sabe quando o Brasil sediará outra Olimpíada? Talvez daqui a cem anos.

Muitos brasileiros têm todos os motivos para desconfiar dos jogos, da ganância de empreiteiros, de políticos, do sistema partidário, dos marqueteiros, da Justiça, da imprensa. Têm motivos para serem do contra. O cinismo, o sarcasmo, a intolerância e o ódio dos novos tempos contaminaram até a chama que vem do berço da civilização ocidental, de um templo de Grécia.

Alguns riram quando policiais se atropelaram na passagem da tocha. Riram quando uma grande empresária do setor de varejo caiu no chão com ela. Hahaha, é amiga da Dilma. Riram de quem caiu. Olha, parece videocassetada do Faustão!

O Brasil foi dissecado pela imprensa internacional. Na autópsia, descobriram nossas mazelas, a violência, a falta de saneamento, a injustiça social, a incompetência, sintoma da corrupção, o desgoverno, as doenças tropicais, a poluição. E descobrimos o preconceito deles contra nós. Esbaldaram-se das nossas diferenças culturais “exóticas”.

Há anos, desde a Copa do Mundo, conhecem nossos piores índices. Talvez nos ajudem a resolver nossos problemas. O primeiro passo é admitirmos que eles existem e deixarmos de esconder com tapumes coloridos a desigualdade social criada por um sistema macroeconômico (político), que não nos liberta do passado escravagista.

Fui como jornalista aos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Ao entrar no estádio lotado, para a cerimônia de abertura da Paralimpíada, sorri sem parar: como deficiente que sofreu preconceito durante anos e foi considerado ineficiente, me vi representado como um vencedor.

Enfim, reconheciam o esporte paralímpico como uma expressão competitiva de alta performance, que forma superatletas. Não apenas como uma extensão da reabilitação de alguns “coitadinhos”.

Ao receber o convite para ser diretor criativo e planejar junto a abertura dos jogos no Brasil, me vi na missão de quebrar o estigma das pessoas deficientes e mostrar indivíduos cegos que hoje correm mais que seus guias, fazem da piscina um túnel de vento, da cadeira de rodas um foguete para vencer e bater recordes.

Me vi na missão de defender que o Brasil é uma potência paralímpica. A ensinar que temos medalhistas heróis mundiais.

Na militância e na vida, conheci alguns desses atletas. Vi neles faca nos dentes. Senti que a luta deles era recompensada. Mas senti que eles queriam visibilidade sem preconceitos, deficientes orgulhosos com dois fronts de batalha, ser o melhor e não se abalar pelas dificuldades.

Nesses últimos anos, pesquisamos, entrevistamos, fomos atrás. Revi meus conceitos. Vi que em todo mundo a inserção do deficiente é legítima, e não uma filantropia social. Aprendi mais que ensinei sobre aprimorar sentidos, ilusão de ótica, expressão corporal, aprendi a ousar e planejar uma cerimônia espetacular. E aprendi que todos querem aprender com a experiência paralímpica. Que fazemos bem às pessoas.

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