Silvio de Abreu agita o País com Belíssima

O leitor fiel de policiais sabe que não há nada pior do se deparar com a solução do mistério antes da hora. Significa, em resumo, que o escritor não é tão bom, porque por mais perspicaz que seja o leitor, ele quer ser desafiado até o fim. No seu suspense televisivo, Silvio de Abreu tem conseguido não só manter, mas fazer crescer o interesse de uma parcela enorme e fiel da audiência - uma média de 60 pontos no Ibope - que acompanha a novela Belíssima toda noite.Como em A Próxima Vítima (1995), ele segura o telespectador com um enigma, mas de outra forma, renunciando ao ?quem matou? e apostando no ?quem mandou?. A diversão é descobrir quem dá as ordens a André (Marcello Antony) no golpe que tirou a fortuna da heroína Júlia (Glória Pires). Há ainda um outro mistério em torno de quem é o filho que a megera Bia Falcão (Fernanda Montenegro) teve com Murat (Lima Duarte). O desfecho só começa nos três capítulos finais. O último, Silvio havia concluído às 5 horas da manhã de segunda-feira passada, mesmo dia em que recebeu o Estado. Estava cansado, claro, mas mantinha a pele boa de quem está sentado confortavelmente no sucesso.Não é raro que uma boa novela tenha um último capítulo fraco. E já se comenta que não é possível que você consiga desatar tantos nós que criou. O que podemos esperar do capítulo de sexta-feira?Já estou explicando muita coisa. Os três últimos capítulos vão explicar muita coisa. O final da novela não é surpreendente é coerente, explica direitinho por que aquilo tudo foi feito e como. Não é assim, tirar algo do bolso do colete, dizer que o gato (Mustafá) é de outro planeta e por isso consegue falar no telefone com o André. O grande trunfo dessa novela é que é uma história mais ou menos convencional contada de uma maneira muito especial, e foi a maneira de contar que criou toda a expectativa. E eu só consigo contar dessa maneira porque tenho, desde o início, um ponto certo onde quero chegar.Desde o começo?Sim, desde o começo. Porque se eu não soubesse, não poderia fazer policial, que você tem de começar pelo fim. Essa novela é um melodrama com uma história policial permeando a principal. Tem uma base muito forte, e é por isso que não desanda mesmo quando eu tenho de fazê-la andar sem a protagonista, a antagonista e sem a mocinha - uma estava morta (Bia), a Glória Pires estava internada (com hepatite) e a Vitória (Cláudia Abreu) tinha levado uma facada. Naquele momento, eu ia concentrar a novela na Júlia. Mas tive de jogar fora 24 capítulos.Você é vítima, não? Já tinha acontecido a mesma coisa em "Guerra dos Sexos".Em Guerra dos Sexos, Paulo Autran teve um problema de saúde. Em Sassaricando, foi a Tonia Carrero que ficou 40 dias fora. Em Deus nos Acuda, foi o Francisco Cuoco. Durante Torre de Babel, o Danton Mello sofreu aquele acidente de helicóptero. Agora, quando acontece algo assim eu já digo ?ah, é agora?!?Mesmo assim, André roubaria a Júlia naquele momento?Sim. O André é uma pessoa contratada por alguém para dar um golpe na Júlia. É uma história simples, de golpe do baú. Mas ele se apaixona por ela. Vira, então, a história de um golpe que tinha tudo para dar certo, mas que dá errado, fica complicada demais por causa das fraquezas humanas. Quando André se apaixona pela Júlia, o mandante começa a chantageá-lo. Fica no ?entrega o dinheiro ou quem vai morrer é ela?. Fiquei muito empolgado com essa história. Foi uma boa idéia, não?Ela sai um pouco do modelo da novela, que está sempre se repassando. Em "Belíssima" acontece muita coisa, todos os dias.Por isso, acho que a novela conseguiu um nível de interesse com o público que vai além da audiência. Não é aquela novela que se assiste fritando bife - as pessoas param para assistir. Não acho que as pessoas abordem você na rua pedindo castigos horríveis para a Bia. A gente pode creditar isso apenas à estrela de Fernanda Montenegro ou há mesmo uma admiração além do normal pelos maus-caracteres da novela, ainda que ela coincidiu com um momento delicado da política brasileira?Isso vem de uma observação da sociedade. Fizemos apenas um grupo de discussão da novela com telespectadores. O que mais me surpreendeu foi justamente o posicionamento do público com relação aos personagens maus-caracteres porque, desta vez, o público achou os personagens bons bobos. As pessoas achavam que para você conseguir alguma coisa na vida não pode ser igual ao Cemil (Leopoldo Pacheco), por exemplo. Certo estava o Alberto (Alexandre Borges), que arma para conseguir o que quer. O que seria considerado, há cinco anos, como uma falha de caráter, agora é louvável. A mesma coisa com relação a Bia e ao André. As pessoas diziam ?ah, mas ele é tão bonito...?.É, ficou melhor vestido de preto...Ficou mesmo! A valorização de quem é esperto está muito forte hoje em dia no Brasil, porque é o exemplo que o governo está dando para nós. A novela está refletindo o que o País se tornou. O que interessa hoje é ter dinheiro e poder, e é essa a essência da novela. Belíssima é uma briga por dinheiro e poder. Sei que fez de tudo para esconder da imprensa os detalhes misteriosos da novela. E várias informações divulgadas pela imprensa não se confirmaram. Como foi isso, você soltou pistas falsas?Eles apostam, mas eu não tenho nada a ver com isso. Soltei algumas pistas, mas na própria novela, falsas e verdadeiras. Eu gosto de fazer essas brincadeiras, colocar um desligando o telefone numa cena e na cena seguinte, o outro desliga também. O Gigi (Pedro Paulo Rangel) foi apontado como vilão por causa disso. Quero que as pessoas prestem atenção, e jogo com a expectativa. Mas quando publicam palpites como verdades que depois não se confirmam, vão dizer que fui eu que mudei. Como se eu fosse alguém que mudasse de opinião a todo hora. Não sou.

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