"Silêncio" de Handke estréia em São Paulo

Acomodados com os atores ao redor de uma espécie de mesa de reuniões, 40 espectadores vão poder participar bem de perto da ação de Silêncio, peça de Peter Handke, que estréia amanhã no Centro Cultural São Paulo. Matteo Bonfitto e Yedda Chaves integram o espetáculo dirigido por Beth Lopes, responsável pela premiada montagem de À Margem da Vida, com Regina Galdino. Mas Silêncio promete uma linha de estranhamento mais próxima da recente direção de Beth da peça O Jantar, monólogo no qual um marido falava aparentemente com as panelas enquanto preparava um jantar cujo prato principal, o público descobria no fim, era a esposa por ele assassinada.O estranhamento, nesse caso, nada tem a ver com emoções fortes ou assassinatos, mas nasce da estrutura da peça de Handke. "Criado na década de 70, esse texto representou uma ruptura na dramaturgia tradicional", diz Beth. Não há personagens definidos no texto. O autor escreve na forma de monólogo, mas indica, no texto, que deve ser representado por dois atores. "E ele avisa que divisão das falas entre os atores fica a cargo de cada diretor", diz Beth.Metalinguagem - O teatro é o tema tratado pelo autor. "Na verdade, ele faz uma grande reflexão sobre a vida a partir da atividade teatral", afirma a diretora. Beth optou por ambientar a discussão numa mesa de reuniões ao redor da qual sentam atores e público. Espalhados pelo cenário, arquivos de metal e outros objetos que remetam ao ambiente de uma sala de reuniões, seja de uma empresa ou escola. Fiel à linguagem da metalinguagem que perpassa todo o texto, Beth optou por brincar com as diversas linguagens da representação. "No início, eu trabalho com o excesso, com hiperatuação e sobreposição de gêneros", diz. Os atores se atritam, partem da discordância. Em vez de fazerem anotações em bloquinhos de papel - como seria de se esperar no ambiente onde atuam -, escrevem nas paredes e no chão. "Aos poucos, as ações vão dando lugar às palavras", explica a diretora. Os gestos vão ficando mais harmônicos e eles conseguem compreender-se dialogando. "Finalmente, eles chegam ao ponto de entenderem-se mesmo em silêncio". Segundo a diretora, o autor brinca com as palavras. "Como em Beckett, ele trabalha com as várias significações de uma palavra, com o duplo sentido, o que resulta numa obra aberta e poética". Segundo a diretora, embora a encenação tenha potencial para encantar o mais simples espectador, a peça deve atrair principalmente espectadores envolvidos de alguma forma com a atividade teatral. "A montagem é lúdica, mas não é um texto fácil".Serviço - Silêncio. Tragicomédia. De Peter Handke. Direção Beth Lopes. Duração: 75 minutos. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 10,00. Centro Cultural São Paulo - Sala de Ensaio 4.Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 18/6

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