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Sigmund Freud como no original

Trabalhos do criador da psicanálise ganham novas traduções feitas diretamente do alemão

Sérgio Telles, especial para O Estado de S. Paulo,

26 de março de 2010 | 21h00

Recentemente colocados sob domínio público, os textos de Sigmund Freud (1856- 1939) já começam a chegar às livrarias em suas novas roupagens, como esta providenciada pela Companhia das Letras. A editora planeja o lançamento da obra completa traduzida diretamente do alemão pelo germanista Paulo César de Souza (a exemplo do que vem fazendo a Imago desde 2004, sob coordenação de Luiz Alberto Hanns). O projeto editorial, organizado em 20 volumes, respeita a sequência cronológica dos textos, mas lança inicialmente os títulos publicados por volta de 1915, ou seja, de um período no qual o pensamento freudiano estava consolidado e em expansão teórica.

 

 

Assim aparecem agora os volumes 10 (Observações Psicanalíticas sobre um Caso de Paranoia Relatado em Autobiografia - O Caso Schreber - , Artigos sobre Técnica e Outros Textos - 1911-1913); 12 (Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos - 1914-16); e 14 (História de Uma Neurose Infantil - O Homem dos Lobos -, Além do Princípio do Prazer e Outros Textos - 1917-20).

 

 

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 Temos aí trabalhos teóricos e técnicos da maior importância e dois dos famosos casos clínicos de Freud, o Caso Schreber e O Homem dos Lobos, que certamente encantarão o leitor curioso. Schreber foi um importante magistrado alemão que escreveu um registro biográfico no qual expõe com riqueza de detalhes (embora a família tenha censurado grande parte do texto) a transformação de seu corpo para ser a mulher de Deus e com ele engendrar uma nova raça de homens. A partir deste livro, Freud retraça as origens e os significados do delírio, mostrando como mesmo as ideias mais loucas e descabidas podem ser compreendidas, desde que remetidas à lógica própria do inconsciente. O mesmo pode ser dito sobre O Homem dos Lobos, jovem russo e rico que perambulava pela Europa atrás de quem o curasse de suas angústias e que, aos 4 anos, tivera um sonho no qual via uma árvore em cujos galhos estavam sentados alguns lobos (razão do apelido com o qual ficou conhecido), o que permitiu a Freud realizar uma controvertida construção.

 

Concomitantemente às obras de Freud, a editora relança a tese de doutorado do tradutor, As Palavras de Freud - O Vocabulário Freudiano e Suas Versões, defendida na USP, centrada no exame das dificuldades apresentadas na tradução de determinados termos "técnicos" fundamentais dentro da teoria freudiana. São eles Ich (ego), Es (id), Besetzung (catexia), Verdrängung (recalque ou repressão), Vorstellung (representação), Angst (angústia), Nachtraglichkeit (posterioridade), Verneinung (negação), Verwerfung (forclusão), Zwang (obsessão), Trieb (pulsão ou instinto) e Versagung (frustração).

 

Esse foco poderia ter resultado em um texto árido, o que não ocorre, pois, para desenvolver a discussão filológica desses termos, Souza parte das duas grandes traduções paradigmáticas da obra freudiana que o antecederam - a inglesa Standard Edition, de James Strachey, e a Oeuvres Complètes, o projeto francês ainda em curso dirigido por Jean Laplanche - oferecendo um rico panorama de seus contextos históricos e institucionais. Seguimos com interesse o percurso da Standard Edition, durante décadas considerada o padrão-ouro das traduções dos textos freudianos. Seu prestígio diminuiu com o aparecimento das críticas de Bruno Bettelheim, publicadas - certamente não por coincidência - logo após a morte de Anna Freud, defensora de Strachey, fato que mostra a influência dos fatores políticos no trato da obra freudiana. Da mesma forma, tomamos conhecimento das grandes polêmicas que cercam ainda hoje a tradução francesa, vazada, na opinião de alguns, num bizarro "laplanchês". No capítulo sobre estilo e terminologia de Freud, Souza resume as análises estilísticas de Walter Muschg, Walter Schönau, François Roustang, Robert Holt, Patrick Mahony e Uwe Pörksen, dissecando os aspectos formais do texto freudiano, que oscila entre a prosa artística e a prosa científica, usando com desenvoltura tropos e figuras de retórica.

 

Souza faz uma anotação com a qual qualquer leitor de textos psicanalíticos imediatamente concorda: "Quem observa, ainda que panoramicamente, a produção e o modo de atuar dos meios psicanalíticos estrangeiros, constata um divórcio entre a prosa direta, sem adornos e apegada à referência clínica, própria da psicanálise nos países de expressão inglesa, e a prosa mais refinada e um tanto vaga, cônscia de si mesma e autorreferente, peculiar a boa parte do movimento psicanalítico francês."

 

Nesse aspecto, os autores de língua inglesa, mesmo sem o talento literário de Freud, estão mais próximos de sua didática clareza, que procurou sempre se afastar das esfumaçadas formulações em que tão facilmente se abriga a falsa profundidade.

 

Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Visita Às Casas de Freud e Outras Viagens (Casa do Psicólogo), entre outros.

 

Lançamento

Dois eventos marcam o início da publicação destas novas traduções de Freud. No dia 29, começa, no CineSesc, a mostra Mal-Estar na Cultura. E, no dia 30, no Sesc Pinheiros, José Miguel Wisnik faz paralelos entre conceitos freudianos e obras literárias brasileiras, com participação de Caetano Veloso.

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