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Síbaris

Não sobrou vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exata

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 03h00

“Sibarita. (Do gr. Sybarites, pelo lat. sybarita). Adj. 2 g. 1. De, ou pertencente ou relativo à antiga cidade grega de Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua riqueza e voluptuosidade.” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira) 

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Se você imaginar a Itália como uma grande e bem torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto fica naquela parte de baixo, a mais sensível a lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Os muros de Síbaris eram cobertos de heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal – uma casta cuja principal função era apalpar quem entrava na cidade, não para descobrir qualquer coisa escondida, mas pelo prazer de apalpar – faziam um teste com quem quisesse a cidadania sibarita, envolvendo questões de matemática e das artes da indústria e do comércio. Quem passasse no teste era mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem subornasse os Guardiões entrava por aclamação.

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A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde todos trabalhavam e era conscienciosos e corretos. Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos fins de semana. Por lei, todos os crotonenses tinham que estar fora de Síbaris ao amanhecer de segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca acordava antes do meio-dia.

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Cada sibarita podia ter sete concubinas e sua mulher um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As orgias duravam vários dias e só terminavam quando os sibaritas começavam a cantar suas próprias mulheres, sinal de que já não enxergavam mais nada. A monogamia e a abstinência sexual eram consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço. No caso do infrator ser sadomasoquista, sua punição era ficar olhando enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro. Sexo grupal era qualquer ato envolvendo mais de 50 pessoas. A justiça, em Síbaris, era dividida. Havia juízes togados para os casos de direito e juízes nus para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado, salvo exceções como o sexo com abelhas.

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O rei de Síbaris vivia imerso numa banheira com óleos aromáticos. Foi lá que, certo dia, mastigando um pardal caramelado, recebeu um emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas cidades. O rei mandou chamar seu primeiro-ministro, que foi encontrado na cama com duas concubinas e um cabrito, não para pedir seu conselho, mas para rirem juntos da proposta do emissário. Crotona declarou guerra a Síbaris. Como o exército sibarita estava de férias remuneradas, Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em 510 a.C. 

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Não sobrou vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exata, ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de uma longa haste que, segundo os pesquisadores, só podia ter sido usada para coçar o pé.

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Até hoje, ninguém localizou as ruínas da cidade de Crotona.

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