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Shyamalan e seu 'não' blockbuster

'Depois da Terra', como toda obra do diretor, possui elementos de filme de verão, mas não é; o que isso representa?

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2013 | 02h08

É lugar-comum. Os críticos lamentam que M. Night Shyamalan tenha perdido a mão e enumeram seus fracassos desde A Vila, de 2004. O próprio Shyamalan tem uma visão diferenciada de suas, digamos, dificuldades. Em Cancún, em abril, no evento Sony of Summer, ele lamentou que Depois da Terra houvesse sido transformado pelos produtores em 'filme de verão', sendo lançado nesta época e sofrendo a concorrência de O Homem de Ferro 3 e Se Beber Não Case 3.

Shyamalan é melhor que seus críticos - os que o desancam, pelo menos. Diz que seus filmes possuem elementos de blockbusters, mas não o são e isso produz um mal-entendido. Depois da Terra, admite, é o que tem mais atributos de um filme de verão, mas ele confiaria mais em suas chances se fosse lançado em outra época do ano. Vamos logo dizendo, ou melhor, reiterando o que todo mundo já sabe - Depois da Terra fracassou nas bilheterias dos EUA. Vamos, portanto, usar do próprio veneno dos críticos - o desempenho de bilheteria não é nem deve ser o único critério de avaliação de um filme, qualquer filme. Portal do Paraíso, de Michael Cimino, levou a United Artists à bancarrota e hoje é tido como 'clássico'.

Sob um aspecto, pelo menos, Depois da Terra superou a expectativa do astro/produtor Will Smith. Em Cancún, aproveitando o pré-lançamento do filme - que ainda não estava pronto e do qual foram projetados somente trechos -, a Sony promoveu uma conferência internacional sobre meio ambiente com especialistas de todo o mundo. Will Smith participou online com cientistas da Europa e dos EUA - o filme, afinal, passa-se no futuro remoto, depois que a humanidade, por mais de mil anos, desertou da Terra. O planeta tornou-se inabitável por causa do homem e, agora, a nave que conduz Will Smith e o filho, Jaden, cai no planeta que virou, até como reação da natureza, uma armadilha para matar humanos.

Willard (Will) Smith disse em Cancún que a preocupação com o meio ambiente começou em casa. O pai trabalhava com refrigeração, e como tal lia muito sobre o assunto. Will diz que teria seguido no ramo, se a música não tivesse surgido em sua vida, e ele foi rapper antes de ser ator. É sincero - o que fala sobre preservação ambiental é de orelhada, mas se seu prestígio (dez de seus 12 filmes são grandes êxitos de bilheteria) servir para animar o debate e conscientizar as pessoas, ele admite que sua fama estará sendo bem utilizada. Difícil falar sobre um filme que ainda estava sendo feito. No material exibido em Cancún, não havia a menor referência a Moby Dick, e o livro de Herman Melville é uma referência importante. Tanto se pode referir aos temas do perigo e do medo que assombram Jaden Smith como à grande discussão 'teológica' que acompanha o livro. O Capitão Ahab mede-se com a baleia branca e ela representa 'Deus'.

Como o argumento é original de Will Smith, pode-se supor que Moby Dick também seja ideia dele, mas é muito mais provável que venha do diretor. 'Night' construiu toda a sua filmografia em torno aos temas da morte, do medo. Em Cancún, disse que não há nada que lhe produza maior angústia do que o telefone tocar à noite. É presságio de morte, teme. Seu maior medo não é a própria morte, mas a de seus entes queridos. "Converso com minha mulher sobre o assunto e a religião entra sempre como uma ferramenta para mitigar a dor e a angústia. Se há um Deus, ele tem um plano, e isso ajuda a aliviar a angústia", avalia o diretor indo-americano de 42 anos.

Jaden, o verdadeiro herói de Depois da Terra, é um garoto de 14 anos. Houve um momento de tensão na sua entrevista, quando uma jornalista tentou tocá-lo para ver a etiqueta da camisa de grife que usava e saltaram assessores de todos os lados para impedir que isso ocorresse. O fato, mais uma vez, acirrou os rumores da ligação de Will Smith (e do filho) com a cientologia, o que o pai nega. Jaden não difere dos garotos de sua idade. Escreve poesia, tem uma banda e, na noite de Cancún, bancou o DJ, dançando com o pai e até se deixando tocar na pista. Ele gravou um vídeo institucional da Nasa, mostrando o que a agência faz pela preservação ambiental. Seu discurso é o mesmo do pai - "Tudo o que contribuir para conscientizar as pessoas é válido".

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