Show relembra disco emblemático de cantor

Álbum 'Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara' é lembrado em apresentação com músicos que participaram das gravações

O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h14

Agendado para 1º de maio de 1976, nas ruínas de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, o show de lançamento de Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara foi suspenso. Após 28 anos, o repertório do disco que Taiguara lançou naquele ano será interpretado ao vivo em duas apresentações no Sesc Belenzinho.

O grupo que levará o álbum ao palco participou do registro. Wagner Tiso (piano e direção musical), Jaques Morelenbaum (cello), Toninho Horta (violão), Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão), Nivaldo Ornelas (sax e flauta) e Novelli (baixo) se juntam a Toninho Ferragutti (acordeom), Bruno Morais (vocal) e Joana Duah (vocal) para relembrar o álbum mais ambicioso de Taiguara, recolhido por determinação da censura pouco depois de chegar às lojas.

Como lembra a jornalista Barbara Bigarelli, autora do livro Taiguara, Senhor de Si - ainda sem previsão de lançamento comercial -, o álbum foi gestado por Taiguara com Hermeto Pascoal e tinha como eixo um retrato do povo indígena e latino-americano, além de críticas nem tão sutis ao clima do País na época, em músicas como Situação, Público e Terra das Palmeiras, submetidas à censura em nome da então esposa de Taiguara, Gheisa. O encarte afirma que as canções foram assinadas por ela "por motivos de 'edição'".

Para Tiso, Imyra é o melhor momento da carreira de Taiguara. "Ele era um cantor de sucesso popular, mas eu sabia de sua musicalidade desde que nos conhecemos, nos anos 1960. Quando ele colocou toda a sua capacidade em prática, fez de forma grandiosa." O músico admite que vem tendo um "trabalho insano" com a adaptação dos arranjos originais, compostos por orquestra e naipe de metais.

As gravações não transcorreram com tranquilidade. Tiso relembra que brigou várias vezes com Taiguara no estúdio, por conta de seu perfeccionismo. "Virou briga de marido e mulher. Eu ia embora do estúdio e voltava, porque ele era muito radical no que queria. Mas fez um disco fundamental."

O músico também se lembra das queixas de Taiguara em relação ao País naquele tempo. O artista estudou música em Londres e retornou para gravar Imyra, acreditando que o Brasil do general Ernesto Geisel seria o oposto da ferocidade da era Médici. "A gente conversava muito sobre política e ele me disse que estava chateado com o que viu aqui. 'Não imaginei que as coisas continuavam assim', ele me disse."

Tiso ainda ressalta que os shows podem servir como oportunidade para se aprofundar no cancioneiro de Taiguara. "Nem as músicas de grande sucesso dele são lembradas hoje. Por ser um homem que retratou tão bem o seu tempo, seu trabalho merece mais atenção." / R.V.

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