Show epidêmico do Vaccines

Com velocidade e vertigem, grupo inglês sensação convenceu plateia na Liberdade

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2012 | 03h09

O que você esperava dos Vaccines (What Did You Expect from the Vaccines)?

O título do primeiro e único disco dos Vaccines antecipava o frisson que eles causariam e a resposta tornou-se um desafio constante para resenhistas. Esperávamos mais ou esperávamos menos? Bom, a primeira coisa que excede as expectativas é que eles se mostram bem melhores ao vivo do que seu disco. Não são sujos nem garageiros, seu som é até bastante burilado e sofisticado, uma espécie de Ramones com os dentes escovados com laser. Eles contam até três e mandam bala. Mas, igual aos Ramones, ninguém consegue resistir, são uma vacina contra o tédio.

Fenômeno instantâneo do novo rock britânico, os Vaccines desembarcaram pela primeira vez no Brasil na noite de quarta-feira, no Cine Joia, na Liberdade. Atrasaram um bocado para entrar, era para ser às 23 horas, mas eles só entraram uma hora depois, e o público ficou numa saia justa para achar transporte na saída.

Mas os anticorpos entraram em cena aos primeiros acordes de Blow It Up, a quarta música do seu único disco, e disseminaram o vírus. Infeccioso, seu som precisa de estrada aberta para desenvolver sua velocidade. Logo a seguir, veio o seu maior hit, Wreckin' Bar (Ra Ra Ra). O Cine Joia tem acústica melhor na pista, lá no alto dá umas tremidas, fica meio taquara rachada.

Para os Vaccines, trata-se de retomar uma linha evolutiva do pop clássico dos anos 1950 e 1960, especialmente dos Beach Boys. Retomar, não emular. Um crítico brincou que eles são os primeiros desde os anos 1950 a usarem a expressão "go steady" numa música (a canção Norgaard, que fechou a noite). A expressão era usada como equivalente de namorar, ficar, antes da invenção de "dating").

É divertido ficar brincando de ligar os pontos musicais entre os Vaccines e sua maior influência. Post Break-Up Sex tem uma espinha dorsal que lembra muito Pet Sematery, dos Ramones. If You Wanna poderia ter sido composta pelos Ramones logo depois de Sheena Is a Punk Rocker.

Ao mesmo tempo, eles têm o senso da lírica. Family Friend é a balada da inocência perdida. Começa plácida e termina num "Você quer ser jovem mas só tá ficando velho/ E você tinha um verão, mas subitamente ficou gelado". Ao ligarem as turbinas, poderiam ter causado um abalo estrutural no Cine Joia.

A mais "contemporânea" das 11 canções do disco dos Vaccines é Wetsuit, ,mas ainda assim é retrô (pode ser encaixada ali no pop dos anos 1980, com sua batida marcial tipo Bunnymen). Tiger Blood, canção cuja gravação foi produzida por Albert Hammond, dos Strokes, é outro momento em que eles poderiam ser associados ao seu próprio momento histórico (lembra muito Strokes), mas é na inadequação dos Vaccines ao pop rock contemporâneo que se instala a diferença. O Cine Joia, com sua arquitetura que antecipou os tempos do "arrojo desenvolvimentista", caiu como uma luva de cenário para sua cruzada temporal.

O quarteto está jogando por música, nota-se em sua alegria de estar na estrada - estão excursionando sem folga há 19 meses. O cantor e guitarrista Justin Young, com seu cabelinho de Marky Ramone, parece de cara pouco habilitado para uma noitada de rock'n'roll, mas há poucos mais habilitados que ele na atualidade. O nórdico Arni Hjörvar, no baixo, ajoelha-se ao pé do microfone e ensandece as meninas; Freddie Cowan, guitarra, é o lado Mick Jones do grupo; e Pete Robertson, bateria... bom, esse é um operário de demolição.

As canções novas que tocaram, Teenage Icon, No Hope e Bad Mood (espécie de vestibular para o teste dos testes, o segundo disco), mostram que conseguiram manter a "assinatura" Vaccines sem se repetir, o que é ótimo. Mas foram só três, e ao vivo, então ainda não dá para saber. Mas, após tanta diversão, o que esperar mais dos Vaccines?

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