Shostakovich inédito chega ao disco

Arranjos foram escritos pelo compositor em julho de 1941, quando Leningrado estava cercada pelo exército nazista

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2013 | 02h11

Felizmente, há quem não se contente com o óbvio no reino das gravadoras. Vai atrás do novo, do diferente, do esquecido e muitas vezes injustamente recalcado pela história oficial. Por isso, há uma cena contrastante hoje em dia: de um lado, o panorama agonizante das gravadoras convencionais; e o florescimento de selos que ocupam nichos bastante específicos, conquistam uma clientela fiel e constroem um trabalho cultural de enorme importância. É o caso da Toccata Classics, relativamente desconhecida, sediada em Londres. Teve como patronos iniciais Josef Suk e Jon Lord; hoje, seus inspiradores são Vladimir Ashkenazy e Osmo Vänska. Missão: produzir gravações do vastíssimo universo da música clássica que não chega às salas de concerto e que as gravadoras ignoram.

Um excelente exemplo é Songs For the Front, uma primeira gravação mundial lançada este mês. São arranjos para vozes, violino e violoncelo de melodias e canções famosas feitos por Dmitri Shostakovich em julho de 1941, quando Leningrado estava cercada pelo exército nazista. Grupos de músicos espalhavam-se para animar as tropas russas em pequenos shows com estas canções - até agora inéditas. Ao todo, 27 arranjos, que Shostakovich fez em um dia de trabalho. Durante o cerco a Leningrado, entre 1941 e 1944, o compositor ficou famoso no Ocidente, foi fotografado como bombeiro e assim apareceu na capa da revista Time. Mas sua contribuição foi também musical, agora sabemos.

Os manuscritos foram recentemente encontrados na Biblioteca do Conservatório de São Petersburgo, que no período soviético chamava-se Leningrado. São versões de canções de compositores soviéticos como Dunaevsky, os irmãos Daniil e Dmitri Pokrass e os mais conhecidos Mussorgsky , Dargomijski e Rimski-Korsakov. Além disso, contêm canções e árias conhecidíssimas do repertório ocidental, de Beethoven a Bizet, de Rossini a Leoncavallo. As primeiras execuções públicas desde a 2ª Guerra aconteceram em Moscou em 2004.

O doping moral-musical das tropas compunha-se de hits cantados em russo, como La Pastorella dell'Alpi (a sexta das Soirées Musicales de Rossini), Scottisch Drinking Song (da série de canções escocesas harmonizadas para voz e trio piano e cordas por Beethoven), a Habanera da Carmen de Bizet e a Serenata de Arlecchino de I Pagliacci, de Leoncavallo. Entre os russos, três canções de Mussorgsky: Gopak, Canção de Khivria e Parasyas Dumka, as duas últimas da ópera A Feira de Sorochintsy; e Varangian, da ópera Sadko, de Rimski-Korsákov.

Os intérpretes, pouco conhecidos, são integrantes do coro e instrumentistas de um Conservatório Russo de Moscou, comandados por Nikolai Khondzinsky. Entusiasmados, cantam e tocam como se fato estivessem diante dos soldados soviéticos no front, levantando-lhes o moral. Música funcional, mas deliciosa.

UMA ÓTIMA IDEIA EM MEIO AO CENÁRIO AGONIZANTE DAS GRAVADORAS

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