Shirley Paes Leme inaugura mostra na Galeria Nara Roesler

Capturar e aprisionar são verbos que a artista usa para definir a ação de seu trabalho sensível

Camila Molina, do Estadão,

26 de julho de 2007 | 12h23

Nas cozinhas das casas de fazenda fazem-se nos tetos teias de aranha que se vão tornando negras pela fuligem que sobe dos fogões a lenha. O volume preto de impurezas, resquício do cotidiano rural, que se vai fazendo ao longo dos anos, é o picumã, palavra que em tupi-guarani significa peruca. Delicado, desmancha-se quando tocado, mas algo assim tão 'fugaz' é material de uma série de desenhos que Shirley Paes Leme exibe a partir desta quinta-feira, 26, na Galeria Nara Roesler. "Como capturar a percepção de algo do mundo, registrando-o em um suporte convencional e conseguir que o resultado final não seja visto como uma forma fechada em si mesma, com um sentido intrínseco, mas como um índice aberto a inúmeras interpretações?", pergunta/escreve o crítico Tadeu Chiarelli no texto sobre a mostra Atitude: Desenho, de Shirley Paes Leme. Capturar e aprisionar são verbos que a artista usa para definir a ação de seu trabalho sensível: utilizando telas ou papéis (suportes convencionais), ela, com a ajuda da mão do acaso, 'captura o incapturável', como diz: o picumã que se vai desmanchando e dançando no ar (o intocável), o desenho que se consegue da fumaça. As obras, iniciadas há uma década e pela primeira vez exibidas em São Paulo, são em preto-e-branco como só poderia ser já que elas vêm da poeira enegrecida. A artista sopra o picumã, fixa-o de maneiras diferentes com o uso também de um gel: de tanta delicadeza, do material e do gesto de Shirley, cada obra se transforma em um universo - agora sabemos que o grafismo dos desenhos menores não foi feito a lápis; que as formas das obras maiores foram conquistadas pelo domínio do que restou do fogo, da fumaça (se concretizam até mesmo por movimentos da 'pulsação da respiração', ela diz). Aprisionar, capturar: Shirley Paes Leme, nascida em Goiás, mas mineira por sua trajetória, busca a 'mais bela harmonia', como cita de Heráclito, nas coisas que pensamos serem do território do intangível. 'Uso as coisas do universo das minhas brincadeiras na fazenda: o fogo, os gravetos, essas teias das casas. Os artistas cada vez mais querem tratar da cidade, mas eu prefiro o território da zona rural, esse lugar que ninguém vê, mas que é o local em que podemos realmente nos encontrar', diz Shirley, que agora vive em São Paulo. Ela apresenta, também, uma série de obras feitas com gemas de ovos - 'uma tentativa de segurar a vida já que a gema é um embrião', afirma - e outra com pólen - enfim, aprisiona algo que é levado pelo vento. A galeria também exibe em seu pátio interno uma pintura site-specific do jovem artista Rodolpho Parigi.  Shirley Paes Leme e Rodolpho Parigi. Av. Europa, 655, telefone 3063-2344. De 2.ª a 6.ª, 10 h às 19 h; sáb., 11 h às 15 h. Até 268. Abertura hoje, às 20 h, para convidados

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