Sherwood: como tudo começou

Ridley Scott mostrou seu Robin Hood com ênfase na gênese do personagem, que ressurge humanizado

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL, CANNES, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2010 | 00h00

Douglas Fairbanks, Errol Flynn, Richard Todd, Kevin Costner - Robin Hood viveu muitas vezes na tela. Criou-se uma mitologia tão forte em torno do herói da floresta de Sherwood que Mel Brooks se permitiu fazer uma versão cômica. O Robin Hood de Ridley Scott e Russell Crowe não é um herói cômico como o de Mel Brooks - e Cary Elwes, que fazia o papel -, mas também é desmistificado, ou melhor, humanizado. Nenhuma outra versão começou desse jeito. Robin, como arqueiro, integra as forças do rei Ricardo Coração de Leão, que volta à Inglaterra pilhando castelos na França, após o fracasso de sua cruzada à Terra Santa.

Ricardo morre (o grande homem é morto por um cozinheiro francês) e, por isso, Crowe acha que o filme foi escolhido para abrir o Festival de Cannes. Robin, por artimanhas do roteiro, termina encarregado de levar sua coroa a Londres, onde termina ornamentando a fronte do príncipe João. O novo rei revela-se um tirano. Aliás, tirano ele é desde o início da história, mas trai a confiança dos que o apoiaram contra os franceses, exatamente como havia sido traído pelo amigo Godfrey, o grande vilão desta "prequel". O filme termina em aberto, não necessariamente como preparativo para uma sequência. "Aqui começa a lenda", diz o letreiro final. E o público pode engatar a versão de Scott (e Crowe) com qualquer uma das que viu antes.

Fazendo uma pequena digressão, não deixa de ser curioso assinalar que, após o efeito Avatar, dois dos principais lançamentos do verão americano (os principais?) criam heróis de ação com os pés no passado. Um deles é o Príncipe da Pérsia, que o produtor Jerry Bruckheimer adaptou do famoso game. O outro é o bom e velho Robin Hood, que ainda tem o que dizer às plateias atuais.

Pelo menos é o que acreditam Crowe e o produtor Brian Grazer - parceiro de Ron Howard em inúmeros filmes, como O Código Da Vinci, que abriu Cannes há alguns anos. "O filme cria motivações para o herói", diz Crowe. "Ele quer ganhar a mocinha e também descobrir sua origem, honrando o nome do pai." A "mocinha" é outra novidade deste Robin Hood. Lady Marian não é virginal como suas antecessoras na tela. Além de empunhar o arco e a espada, como heroína de ação, ela é agora a madura viúva de um cruzado com quem esteve casada durante apenas uma semana e depois ele partiu para a guerra. Durante dez anos, ela esperou seu retorno. Volta esse outro homem (Robin), que assume o lugar do marido, exatamente como o Richard Gere de O Retorno de Um Estranho, com Jodie Foster (por sua vez adaptado do filme francês Le Retour, de Martin Guerre).

A política é forte motivação para esse Robin Hood e o filme não tem fim, até porque o objetivo é mesmo preparar o espectador para a saga de um combatente da liberdade. Mas Cate Blanchett prefere ver o filme como "um romance". Crowe arrematou: "O que ela queria era me beijar." Ela desdenhou, fez beicinho, em sinal de pouco caso. Estavam de excelente humor e Cate, se alguém ainda tinha dúvida, deixou claro por que é uma das mais classudas atrizes (não apenas estrelas) de Hollywood hoje. Estava linda, uma mulher madura discretamente elegante (e maquiada), capaz de tiradas espirituosas e inteligentes.

Coletivas são como metralhadoras. Jornalistas disparam perguntas como as armas disparam balas. Crowe encontrou-se com o time do Real Madrid e o assunto vira futebol. O Brasil é um de seus favoritos para a Copa. A preparação para o papel, por causa das cenas de ação, foi comparada à de um atleta do futebol. Ele acha que a comparação seria mais apropriada em relação a Gladiador. "Os jogadores dispõem hoje da popularidade dos gladiadores no Império Romano." Cate minimiza a importância da preparação física. "Minha armadura era de plástico", revela. Mas ambos concordam: "Cenas de ação são como balés." Até críticos de dança vão concordar que as "coreografias" de Robin Hood são boas.

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