Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Sheldon Harnick conta como criou as canções de 'Um Violinista no Telhado'

Espetáculo é um dos vários e elogiados musicais em cartaz em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2012 | 21h03

Com cinco musicais em cartaz, São Paulo tornou-se definitivamente a Broadway brasileira. E a variedade de opções permite destacar detalhes preciosos de cada um, como os figurinos de Priscilla, Rainha do Deserto, o humor inteligente de A Família Addams, a inesquecível interpretação de Tim Maia, a mensagem pacifista de Hair e, principalmente, as letras e melodia clássicas de Um Violinista no Telhado. "Por tratar de um assunto universal, mesmo ambientado em uma pequena vila russa, o Violinista continua fazendo sucesso até hoje", observou Sheldon Harnick, autor das letras das canções que, de tão inspiradoras, acabaram incorporadas às grandes festividades judaicas.

Harnick conversou por telefone com o Estado. Aos 87 anos (completa mais um em abril), ele figura como um dos grandes letristas do musical americano, especialmente quando formou uma parceria com o compositor Jerry Bock, com quem criou as canções do Violinista, entre outras famosas. O espetáculo, convém lembrar, é inspirado nos tradicionais contos de Sholom Aleichem e conta a história do leiteiro Tevye (José Mayer), morador de Anatevka, um vilarejo judeu encravado na Rússia czarista, no início do século passado. Pai de cinco filhas, ele se vê diante de uma crise quando elas desafiam a tradição ao recusar casamentos arranjados.

Um Violinista no Telhado estreou na Broadway em 1964 e foi o primeiro musical da história do teatro americano a ficar em cartaz por mais de sete anos. Em 1971, ganhou uma versão cinematográfica. "É curioso que, mesmo hoje, as pessoas continuam rindo e até chorando nos mesmos momentos do espetáculo, da mesma forma que na estreia, em 1964", lembra Harnick.

 

 

Ele estipulou um curioso método de trabalho com o colega compositor: Bock primeiro criava a melodia e a enviava, em uma fita cassete. "Eu buscava ao menos dois aspectos quando ouvia suas músicas", observa. "Primeiro, selecionava os trechos que considerava mais bonitos, que me inspirassem imediatamente. E, depois, buscava encaixar as ideias que eu já tinha guardadas no restante do material." Foi dessa forma que nasceram canções como Tradição, Se Eu Fosse um Homem Rico, À Vida, entre outros.

Uma delas, aliás, Se Eu Fosse Um Homem Rico, teve uma gestação curiosa. Harnick e Bock foram a um evento beneficente promovido por um grupo de atores de origem judaica - a intenção era descobrir talentos para participar da montagem da Broadway. "Durante o show, duas mulheres começaram a cantar, mas sem usar palavras, apenas fazendo sons com a voz", comenta Harnick, lembrando que eram canções hassídicas, ou seja, originárias da Europa Oriental. "Eram sons melodiosos, que encantaram Bock a ponto de ele criar aquela canção e pedindo que eu usasse o mesmo recurso na letra."

Assim, Harnick adotou a mesma tática das mulheres e, em Se Eu Fosse Um Homem Rico, trocou alguns versos por sons. "Na verdade, eu percebia que as palavras eram desnecessárias em alguns trechos - a sonoridade era mais forte." Mesmo satisfeito com o resultado final, Harnick, no entanto, ainda tinha dúvidas sobre sua execução. Para se tranquilizar, ele contatou o ator Zero Mostel, que interpretou Tevye na primeira montagem do Violinista. "Eu cantarolei a melodia e ele me garantiu que conseguiria reproduzir daquela forma. E é verdade: basta ouvir as gravações feitas na época para comprovar que ele foi perfeito."

Outra lembrança preciosa de Sheldon Harnick explica como foi concebida uma das mais importantes canções do musical, justamente a de abertura, Tradição. Segundo ele, o trabalho criativo já estava adiantado, com boa parte do repertório já definido, quando um amigo notou o que se tornaria o cerne do Violinista: a quebra de tradição, uma vez que as filhas de Tevye escolheram os próprios maridos. "Percebemos que, para mostrar esse momento revolucionário, era necessário exibir antes como funcionava a rotina da aldeia", conta Harnick. "Daí tivemos a ideia de retratar, pela letra musical, o que parecia eterno nos costumes daqueles habitantes."

O trabalho da dupla também sofreu uma importante influência do coreógrafo Jerome Robbins. Um homem obcecado pelo trabalho, Robbins (1918-1998) buscava criar uma coreografia em que os passos da dança se adaptassem à história, estipulando uma naturalidade nos movimentos. "Mas era um profissional realmente aficionado pelo seu trabalho, a ponto de obrigar a mim e a Bock a reescrever e reescrever as canções", comenta o letrista. "Na verdade, Jerome tinha uma ligação particular com a trama."

Harnick conta que, quando estava com 7 anos, o coreógrafo foi levado pelos pais para a Polônia, para aldeias que, na 2.ª Guerra Mundial, foram destruídas pelos nazistas. "Jerome percebeu que o musical era a chance de colocar a cultura shtetl (inspirada na vida das pequenas comunidades judaicas daquela região da Europa) no palco, para dar-lhe uma vida. Ele era um homem com um objetivo: criar um musical que durasse ao menos 25 anos. O trabalho foi além, pois já estamos quase completando 50 anos da estreia do Violinista."

UM VIOLINISTA NO TELHADO

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722. 5ª e sáb., 21h; 6ª, 21h30; dom., 17h. R$ 40 a R$ 200

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