Shakespeare irreverente

Parlapatões retomam o sucesso PPP@WllmShkspr.Br

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2012 | 03h13

Pegar as 37 peças de William Shakespeare. Condensá-las e entregá-las todas, de uma só vez, a uma trupe de palhaços. A ideia soa quase estapafúrdia. Mas deu certo. Muito certo.

Foi com esse pressuposto megalomaníaco que os Parlapatões alcançaram o seu primeiro grande sucesso: PPP@WllmShkspr.Br. A peça, que entrou em cartaz em 1998, garantiu ao grupo projeção nacional. Abriu portas. E, agora, quando a companhia completa 20 anos, volta ao repertório em versão renovada.

Com novos figurinos e cenários, o espetáculo também teve trocas no elenco original. Permanecem Hugo Possolo e Raul Barreto. Já o lugar que era de Alexandre Roit na primeira montagem será interpretado por Alexandre Bamba. Fora isso, quase todo o restante permanece inalterado. "Mantivemos a encenação ", revela Hugo Possolo. "Refizemos figurinos, adereços e cenários sob a mesma concepção, apenas porque a maior parte do material não resistiu ao tempo."

À época de sua estreia, PPP@WllmShkspr.Br chamava atenção por conseguir reunir nomes de diferentes gerações e escolas do teatro brasileiro.

Escrito pelos americanos Adam Long, Jess Borgeson e Daniel Singer, o texto da peça (The Complet Works of William Shakespeare Abridged) distanciava-se da habitual reverência com a qual a obra do bardo costuma ser tratada. Ainda assim, foi traduzido por Barbara Heliodora, uma das mais respeitadas tradutoras de Shakespeare no País. Também da velha guarda vinha o diretor Emílio Di Biasi, conhecido pelo rigor de suas escolhas no palco. "Poderíamos ter visões diferentes de teatro, mas tínhamos a mesma motivação poética de fazer rir gerando alguma reflexão", relembra Possolo. "Isso nos uniu de tal forma que o que parecia ser conflituoso se tornou um processo profundo de conhecimento do que os métodos de interpretação tinham a nos oferecer. Todos diminuímos nossos preconceitos e crescemos artisticamente."

De acordo com o parlapatão, a retomada da peça também surge como homenagem a Di Biasi. Em 2012, o encenador completa 50 anos de carreira.

Riso trágico. Curiosamente, não é nas comédias de Shakespeare que o espetáculo encontra a fonte primordial para provocar o riso na plateia. Cabe às tragédias garantir o brilho e os maiores achados cômicos do trio de atores. Disputas de poder tornam-se partidas de futebol. Versos de Otelo transformam-se em repentes de rap. Romeu e Julieta tem lugar de destaque nessa seleção. Ocupa boa parte dos 90 minutos da encenação. Mostra-se uma paródia do casal de jovens apaixonados,aproximando-os das figuras de Grande Otelo e Oscarito. Hamlet também merece um olhar detido. As agruras do príncipe da Dinamarca são mostradas em formato condensado e, até mesmo, de trás para frente.

A peça original já chegou ao País com a chancela do sucesso. Foi muita bem recebida tanto em Londres quanto em Nova York. Aqui, porém, essa síntese dos textos shakespearianos ganhou sabor próprio. Na leitura dos Parlapatões não faltaram perucas, caretas e sotaques caricatos. Além de um humor rasgado, sem pruridos de sobriedade, que o grupo trazia de sua experiência com o teatro de rua.

Não por acaso, o título do espetáculo, em formato de endereço eletrônico, faz menção ao Brasil. PPP@WllmShkspr.Br carrega um olhar mordaz sobre certos aspectos da realidade nacional. Na nova leitura, atualizaram-se algumas piadas. Referências, por exemplo, a novelas e programas televisivos exibidos no fim dos anos 1990 foram substituídas.

É costume dos Parlapatões manter muitas de suas produções no repertório. De acordo com Possolo, o grupo tem hoje 12 títulos que são apresentados em diversos Estados. Também a iniciativa de retomar uma criação antiga já é hábito do grupo, que fez isso com montagens como Sardanapalo. "Todo artista tem seus hits", diz o ator. "Na música é mais fácil regravar. No teatro há muito desperdício, pois as temporadas são cada vez mais curtas e não alcançam todo o público que poderiam."

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