Shakespeare em alta no mundo da intolerância

Momentos turbulentos no mundo, como o atentado terrorista que chacoalhou a Espanha nesta semana, provocam reações imediatas nos artistas, que buscam manifestar pela arte seu protesto e inconformismo. Se houve alguém que encontrou uma maneira de transformar os mistérios, as esperanças e os sentimentos em elementos concretos, foi William Shakespeare. Por isso, seus textos inspiram diversas formas de discussão, como a série de peças que estréia no Centro Cultural São Paulo - hoje é a vez de As Fidalgas, versão de Os Dois Fidalgos de Verona, que discute o papel da mulher na sociedade; na sexta, chega O Mercador de Veneza, estudo sobre homens que se recusam a constituir uma sociedade; e, no dia 26, Titu.S. Persona non Grata que, a partir de um dos primeiros textos de Shakespeare, Titus Andronicus, conta como um general romano assume a voracidade típica dos falcões do atual império americano. "A falta de entendimento e a quebra de valores que marcam a sociedade de hoje estão vivos nas páginas de Shakespeare", comenta Edna Ligieri, que traduziu, adaptou e dirige a montagem de As Fidalgas. "Ele descrevia a essência do ser humano." Edna decidiu trocar o sexo dos personagens (e não dos atores) para ressaltar discussões sobre a feminilidade da época. "É uma forma de mostrar o real papel do outro." À frente da empresa Shakespeare Produções Artísticas (homenagem evidente ao autor cuja obra estuda desde 1994), Edna organiza também a exposição que apresenta amplo painel de outras montagens brasileiras de textos do dramaturgo inglês - Shakespeare... em Terras Brasileiras reúne fotos, maquetes e peças de vestuário de espetáculos como o Otelo de Juca de Oliveira e Ney Latorraca (1982) e Trono de Sangue, que Antunes Filho dirigiu em 1992. "Preparamos também um caderno com depoimentos de profissionais como J. C. Serroni, Ulisses Cruz, José Celso Martinez Corrêa, Antunes Filho, Bárbara Heliodora e outros", conta Edna, cuja exposição, também no Centro Cultural São Paulo, começa no dia 6. Se As Fidalgas pretende criar uma atmosfera renascentista, O Mercador de Veneza quer manter feridas abertas ao mostrar como o desejo pelo lucro destrói a identidade do próximo. "Veja o exemplo da invasão americana no Iraque", comenta o diretor Sérgio Ferrara, que comanda a Cia. de Arte Degenerada na montagem da história de dois homens, o cristão Antônio e o judeu Shylock, que se enfrentam por questões de dívida. "A intolerância gera vingança e a atualidade só comprova isso." Durante anos, O Mercador foi estigmatizada como uma peça anti-semita, especialmente pela "estupidez espiritual" de Shylock, o rico judeu que arrisca seu dinheiro ao emprestá-lo a Antônio, cristão de "bondade desinteressada". "Acima de qualquer religião, no entanto, o que se vê são más ações em um mundo corrupto tanto na vida privada como na política", observa Ferrara, que transformou Antônio em um traficante de narcóticos cuja relação com seus pares o aproxima da máfia. Como vai ocupar o porão do Centro Cultural São Paulo, o diretor forrou o chão de cor vermelha, que representa não apenas o sangue como também a vingança. "E tudo se passa em uma Veneza que poderia ser a Nova York de hoje, ou seja, uma cidade que protege os homens que trazem lucros." A desenfreada busca pelo poder, aliás, motivou o grupo Teatro dos Benditos Malditos a lançar seu manifesto em Titu.S. Persona non Grata, que traz para a cena a geopolítica mundial contemporânea enredada na trama de um dos primeiros textos de Shakespeare, Titus Andronicus. "Fazemos uma montagem antiimperialista", comenta o diretor Márcio Tadeu. Ele e o grupo se basearam nas idéias do pensador Jean-Christophe Rufin (autor de O Império e os Novos Bárbaros) para recriar o original de Shakespeare. Assim, se o texto do bardo trata das batalhas em que Roma derrotou Cartago e garantiu a manutenção de seu império, na versão atual o império americano luta contra os novos bárbaros, ou seja, árabes, iranianos, afegãos, latinos ou coreanos, dependendo da ocasião. "Organizamos uma peça-passeata, que utiliza o espaço teatral para representar todos os crimes cometidos pelos grandes impérios, como invasões, genocídios, estupros, torturas e até canibalismo", conta Tadeu. "O que mostra como Shakespeare era genial.As Fidalgas - Sexta e sábado às 21h e domingo, às 20 horas. Centro Cultural São Paulo - Sala jardel Filho (R. Vergueiro, 1.000. tel.: 3277-3611)No Rio de Janeiro - O bardo inglês terá, em 2004, no Rio de Janeiro, pelo menos nove montagens profissionais. Duas delas já estão em cartaz, Ricardo III, no Teatro João Caetano, com Anselmo Vasconcellos no papel-título; e Macbeth, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), pela companhia Amok, dos premiados Stephane Brodt e Ana Teixeira. Em abril estréiam mais dois, Ensaio.Hamlet, com a Cia dos Atores, no Espaço Sesc, e Sonho de uma Noite de Verão, também no CCBB, com o grupo Nós do Morro, que há anos recebe assessoria da Royal Shakespeare Company inglesa. Há pelo menos quatro séculos, Shakespeare seduz encenadores e atores, que buscam novas interpretações para suas peças, significados diferentes para suas tramas e formas de adaptá-las (ou não) para o período em que vivem. O Macbeth que estreou anteontem busca tudo isso, mas também quer permanecer fiel ao original. "Segue a linha de investigação do lado obscuro do homem, que norteou nossos espetáculos anteriores, Cartas de Rodez e O Carrasco. Escolhemos um Shakespeare porque, até aqui, só tínhamos adaptado textos não dramatúrgicos", conta Ana, que dirige a montagem. "Mas só foi possível porque, com o prêmio do Governo do Estado de 2002, compramos a sede da companhia, contratamos mais atores e passamos um ano ensaiando." Seu Macbeth, com Brodt no papel do rei dividido entre a ambição e a culpa, mescla traduções brasileiras e francesas (língua de origem do protagonista) e reduz o espetáculo, com mais de 30 personagens no original, a sete atores e pouco menos de duas horas de duração. "Mas nos mantivemos fiéis à essência de Shakespeare. Tal como nas suas encenações no século 16, não há cenário, tudo depende do ator", avisa Ana. "É um trabalho físico, do qual se tira tudo que atravanca a comunicação. Sobra ao ator usar a imaginação, a voz, o corpo e a emoção, que são a base do teatro." A fidelidade vai ao ponto de enfatizar a influência das forças sobrenaturais na ação. Para Brodt, são o motor da história, embora o Macbeth seja dono de suas decisões. "Por isso é um personagem tão fascinante, ambíguo e humano, com uma trama muito bem montada em torno dele", diz o ator, que, desde sua chegada ao Brasil, em meados dos anos 90, se arrisca em espetáculos e personagens aparentemente pouco comerciais, sempre com ótimos resultados de público e de crítica. "Quando trabalhamos um texto, não pensamos se vai ser sucesso ou não. Queremos fazer o melhor, não buscamos espaços enormes para ter sempre muita bilheteria, mas queremos fazer muitas vezes cada peça que montamos." Shakespeare se adapta a todo tipo de espetáculo, das superproduções em grandes teatros, como Ricardo III, a salas médias, como o Gláucio Gil (que receberá A Tempestade, dirigida por Luiz Artur Nunes) e o Miguel Falabella (onde se encenará O Conto de Inverno, a partir de junho), ou espaços exíguos e/ou alternativos, como a rotunda do CCBB (para onde a companhia paulista Caixa de Imagens leva Otelo) e o fosso do Teatro Carlos Gomes (que abrigará Ophelia by Hamlet, de Celina Sobré). Há espaço até para adaptações infantis, como Os Dois Cavalheiros de Verona, que estará no Teatro do Jockey no segundo semestre.

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