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Sexta-feira, 13...

Dizem que hoje é o dia do azar. E nesse dia, os supersticiosos, crentes e profanos, sofrem. E não são poucos.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2015 | 02h09

1. Há os que saem de casa rezando e dão o primeiro passo com o pé direito.

2. Os que faltam ao trabalho por sentirem um péssimo presságio no ar, que já é nocivo.

3. Os que não falam com o (a) cônjuge, por temerem algum deslize ou armadilha ou contrariedade no amor.

4. Os que não dirigem carro e se sentem ameaçados pelas chuvas e pela árvore que vai desabar no exato momento em que o motorista incauto passa perto dela.

5. Há os que pensam na morte ou numa tragédia e são paralisados por essa obsessão.

6. Os que pensam nos desvalidos deste mundo, ou nos azarados deste vasto mundo e murmuram, aliviados: "Eu não sou um deles".

7. Há os que não viajam de avião e os que não viajam de jeito nenhum.

8. Mas há também os dissidentes da superstição, essa atitude convencional, que Voltaire considerava infame. Por exemplo, alguém que diz: "Hoje à noite vai acontecer uma coisa incrível e nessa noite eu serei feliz".

9. Os que zombam dos supersticiosos e dizem: é um dia como outro qualquer, o purgatório é o mesmo.

10. Há os supersticiosos às avessas, que decretam esta sexta-feira o dia da sorte, vangloriam-se dessa inversão arbitrária e se desembestam em busca da felicidade.

11. Os que adoram jogar pôquer nessa noite de azar, que lhes trará fortuna.

12. Há os indiferentes a essa sexta-feira, 13: uma data que não os faz menos ou mais infelizes.

13. Uma amiga me disse que foi numa sexta-feira de azar que ela começou a ler um grande romance. "E esse romance mudou minha vida". (Mas isso é um exagero, Tina. Não enfatizemos...)

14. Um sátiro se lembra de uma noite de amor que começou na sexta e se prolongou até a manhã do domingo, quando esse mesmo sátiro acordou sozinho e percebeu que tinha sonhado.

15. E por falar em sonho e domingo... Esse dia de descanso me convida a ficar em casa, lendo, ouvindo música e podando a romãzeira de um jardinzinho.

16. Mas no próximo domingo, dia 15, vou romper a rotina: levarei um cacho de crianças para ver pela segunda vez Simbad, o Navegante (às 12 horas, Sesc Pompeia). É uma belíssima encenação de teatro circense, inspirada no conto famoso do Livro das Mil e Uma Noites. Dois excelentes atores viajam num cenário surpreendente e reinventam, com humor e magia, as aventuras do navegante Simbad, "esse Odisseu impelido pela sede de aventura, não castigado por um deus", como escreveu Jorge Luis Borges num belo poema.

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