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Laura Greenhalgh
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Sexo, poder e o cálculo da política

Monica Lewinsky quebrou o silêncio de dez anos. E falou. Construiu sua narrativa sobre o escândalo sexo & poder que sacudiu a América. O testemunho da ex-estagiária da Casa Branca, publicado na última edição da revista Vanity Fair, que circula há dias, foi o alvoroço da semana no noticiário que funde política, culto à celebridade, mexerico e achismo de internautas. Intitulado Shame and Survival (Vergonha e Sobrevivência), o relato pode até premiar Monica com um contrato milionário em Hollywood, ou algo assim. Mas, antes, põe em foco a estupidez do politicamente correto e o maniqueísmo tosco dos neoconservadores, dois males que castigam os Estados Unidos.

Laura Greenhalgh, O Estado de S. Paulo

10 de maio de 2014 | 08h18

 

No testemunho, Monica avisa que é hora de "queimar a boina e enterrar o vestido azul". Refere-se a itens do seu guarda-roupa associados ao romance de dois anos (1995-96) com Bill Clinton, tendo a Casa Branca como cenário. O vestido azul, manchado de sêmen, foi inclusive peça da investigação que quase acabou levando o ex-presidente ao impeachment.

 

Diz Monica que seu ex-chefe se aproveitou dela, mas que, a rigor, mantiveram relação consensual. Arrepende-se do caso, vivido na bagunça dos seus 21 anos. Conta como foi sua vida depois que passou a ser tratada como "A Raposa", "A Chantagista", "A Prostituta" - ou simplesmente "Aquela Mulher", como a chamavam Clinton e seu staff. Morou em algumas cidades americanas, mas acabou saindo do país para fazer mestrado na London School of Economics, em psicologia social. Penou para arrumar emprego. Passou por relacionamentos amorosos ruins. Escondeu-se uma década dos papparazzi e ainda hoje se defende do boato de que recebeu uma bolada dos Clintons para ficar calada.

 

Convenhamos, tudo isso pode ter acontecido. Ou não. O que cabe perguntar é por que Monica Lewinsky resolveu falar justo agora, na antessala da corrida presidencial que certamente terá Hillary Clinton como candidata pelo Partido Democrata. Conjecturas: 1. O veterano Graydon Carter, editor da Vanity Fair, decidiu detonar logo essa bomba, pois seria politicamente inaceitável exumar o caso Clinton-Lewinsky com a campanha em fase avançada e os candidatos on the road. 2. Carter detonou a bomba para aliviar a barra de Hillary. Fala-se agora do caso, esgota-se seu potencial corrosivo e a coisa fica por aí. Se algum rival retomar o escândalo no auge da campanha será como servir comida requentada a um eleitor sem apetite.

 

Hillary resistiu bem à semana de tititis. Comentou que o adultério do marido com a estagiária foi, de fato, "uma história fantástica". Já Graydon Carter foi alvo da ira de seu público leitor, especialmente mulheres. Propaga-se uma corrente online para que ninguém compre a revista. "Por que trazer de volta esta p... que enxovalhou nosso país?", disparou uma leitora. Outra lançou a flecha envenenada da dúvida: "O que é isso, Graydon? Trabalhando para os CONservadores?". As letras maiúsculas, claro, remetem à direitona do Tea Party, cuja ‘estrela’, a ex-governadora Sarah Palin, não perdeu tempo para derramar baboseiras.

 

À beira de um lago no Alasca, Sarah gravou entrevista para um jornalista visivelmente de encomenda, exibindo happy face ao falar de Hillary. O entrevistador levantou bolas para a republicana cortar, como se diz no jargão jornalístico. Perguntas montadas, respostas, idem. "A senhora acha que a senadora Hillary, que vai ser avó, deve mudar de posição sobre temas como aborto?" Touché! Vai que é tua, Sarah Palin!: "Bom, ela agora terá uma visão mais ampla da vida, afinal, vai ver o bebezinho, ele estará ali, não é mais uma causa, um tema...". E Sarah conclui que a futura vovó vai virar pró-vida, como ela.

 

Eis que a turma da polarização entra em campo para encurralar Hillary. Talvez de forma tão prematura quanto terá sido reviver Monica Lewinsky, seja com a intenção de abrir ou não um buraco no casco da pré-candidatura democrata - sim, porque talvez a intenção da Vanity Fair tenha sido unicamente vender revista. Embora uma edição como esta possa vender muito mais no calor da disputa política, não agora. O fato é que a ex-senadora e ex-chefe do Departamento de Estado, relembrada como "vítima" de adultério, já está na mira do Tea Party numa saia-justa chamada aborto. Saia-justa que Obama veste com discrição, preferindo o risco de se expor na defesa de direitos do eleitorado gay.

 

Mas tudo é risco calculado. Hillary sabe desviar de debates polarizadores e foi treinada por feministas tarimbadas, que a apoiam incondicionalmente. Contudo, as mesmas que sentaram o sarrafo em Monica Lewinsky, naquele final de anos 90, desqualificando a moça, tratando-a como vagabunda, sem levar em conta que, naquele caso rocambolesco, havia uma jovem de 21 anos em início de carreira e um homem de 50, no apogeu do poder, confrontados numa situação hierárquica. As feministas agiram como senhorinhas pudicas, moralistas, preservando o marido de Hillary. À Vanity Fair Monica queixa-se da ausência de apoio das defensoras da condição feminina. Toca num ponto nevrálgico.

 

Relevante serviço prestou Mimi Alford (nascida Beardsley), quando anos atrás decidiu contar em livro seu romance com o chefe, também na Casa Branca: era estagiária quando John Kennedy vidrou na sua beleza e no fino trato - nascida numa família rica, em Connecticut, Mimi estudara em ótimos colégios e fora criada para fazer bom casamento. Tinha 19 anos. Primeiro, o presidente a atraiu para banhos de piscina na residência oficial, na hora do almoço. Depois fez com que um assessor a entupisse de daiquiris, daí Kennedy levou-a num tour privativo pela Casa Branca. Desvirginou-a na cama em que dormia com Jackie. O romance durou ano e meio. Em novembro de 1963, encontraram-se rapidamente no hotel Carlyle, em Nova York. Mimi iria se casar com outro, Kennedy então lhe deu um presente em dinheiro. Que comprasse um vestido. No dia seguinte, o amante morreu, assassinado, em Dallas.

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